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21.4.12

Livros revisitados - "A economia parasitária"

Há ícones que não morrem e Raoul Vaneigem é um deles. Nascido em 1934, ele é um dos teóricos da geração que produziu o Maio de 68. Belga de origem, cidadão de si e do mundo, considerado o mais Libertário e menos político dos membros da “Internacional situacionista”, movimento estético, político e filosófico que considerava de igual forma as opressões capitalistas e comunistas, perante o cidadão comum.

O livro de hoje, que não o seu mais conhecido “Traité de savoir-vivre à l'usage
des jeunes générations”
, de 1967, que foi um verdadeiro manual panfletário do Maio de 68, é uma compilação portuguesa derivada da obra francesa "Nous qui désirons sans fin”,  de 1996, na sua 1ª edição da Antígona, em 1999, com o ISBN 972-608-103-3, intitulado “A economia parasitária”.
É difícil ler Vainegem, sem um pequeno calafrio na espinha, tal o alcance dos seus raciocínios, pensamentos e prospetivas. Ele, como quase todos os libertários, assume a palavra e a acção, como uma verdadeira arma, nesta guerra permanente entre o satus quo e a modernidade assumida pelo Novo.

“O estádio parasitário da economia é atingido quando o valor de USO tende para zero e o valor de TROCA para o absoluto”, conclui clarividente Vaneigem, a páginas 50, relembrando a “economia de casino”, segundo a expressão de Mário Soares, na qual vivemos há décadas no mundo. Ora, quando observamos, especialmente desde 2007, ao descalabro da especulação financeira e ao sistemático roubo do trabalho, da produção, dos bens, numa espiral de superlativos económicos, sobre a essência do Homem, seja a sua vida, as suas relações, a sua vivência em sobreposição à sua “sobrevivência”, compreendemos este apologético conceito gritado por Vaneigem, em 1996, mais de uma década antes.

“A economia parasitária já não tem outra matéria a explorar que não seja ela mesma. Abandona a produção e aumenta o imposto sobre o trabalho. Retira-se do consumo e ameaça tirar ao consumidor o seu poder de compra se este não lhe confiar o depósito do salário, das poupanças, doa bonos, da reforma, o dinheiro dos gastos quotidianos, tudo coisas que doravante os Bancos reservam para seu lucro e emprestam a taxas usuárias.” (…)

“Isso de uma pessoa gastar e se agitar sem escrúpulos, como o discurso dominante levava o consumidor a fazer, são águas passadas. A falta de rendimentos obriga doravante o consumidor a poupar e a poupar-se, ao mesmo tempo que o dinheiro de sobrevivência que lhe é recusado reflui e vai frutificar nas mãos de uma oligarquia financeira.” (…)

“Prazer, saber, conforto, saúde, tudo isto são coisas que cada vez menos se podem vender e comprar, devendo cada vez mais sacrificarem-se com vista a sanear um orçamento onde os interesses privados proclamam ter por base o interesse público, não em virtude do que dão à sociedade, mas em função do que dela SACAM!” (…)

“Mas o totalitarismo económico deixou entretanto de precisar de homens políticos ou de ideologias. Bastam-lhe funcionários que administrem mundialmente a dívida pública e a falência dos estados nacionais”.

Perante o escrito de Vaneigem, em 1996, sobre a realidade que hoje é para todos nós cada vez mais evidente, é lícito perguntarmo-nos: deveremos encontrar ou não outro caminho? Há ou não outra solução para os povos, para o País, para a nossa terra?

Sou daqueles que acredita que sim e que, da leitura dos mais vanguardistas e da aprendizagem assim obtida, evitaremos a instalação, já a operar-se, de um sistema neo-fascista, o qual reduz o indivíduo a coisa e a coisa a bem transaccionável especulativamente!

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