O blogue já teve 73.484 até setembro deste ano +++ 106.801 visitas em 2017 e mais de 413 mil desde julho/2010

21.10.18

19.10.18

Fechar uma estrada nacional, para fazer uma Feira? Só em Tomar...

Primeiro por razões práticas, do lançamento do concurso de requalificação da Várzea Grande, depois por razões de procura de uma melhor solução para a secular Feira de Santa Iria, este executivo municipal, decidiu arriscar em colocar a Feira, na envolvente ao Mercado Municipal.


Agora que está passado o evento, há que refletir criticamente sobre essa opção.
Notoriamente houve menos comerciantes instalados o que acabou por facilitar o arrumo dos mesmos. Este decréscimo já se vinha sentido, de forma sustentada, ao longo dos anos, levando a que a "mancha" de ocupação na Várzea Grande fosse cada vez apresentando mais clareiras, dando um aspeto pouco consistente à mesma. Não é por isso de estranhar que a opção pelo uso do parque de estacionamento de Santa Iria se tenha revelado a mais criticável escolha, uma vez que foi esta que levou depois à peregrina ideia de encerrar o trânsito na EN110, entre a Rotunda Alves Redol e a Rotunda dos Bombeiros, o que causou nos primeiros dias um olímpico caos na mobilidade e circulação da cidade.
EN110, fechada no troço entre a Rotunda Alves Redol e a Rotunda dos Bombeiros

Este foi, quanto a mim o menos conseguido dos aspetos desta nova localização da Feira de Santa Iria, perfeitamente escusado se tivesse havido a necessária reflexão sobre os prós e contras de diferentes desenhos de ocupação. Dá aliás a ideia de que houve uma tomada de decisão, sem cuidar de envolver a engenharia do Município, na qual existem profissionais experientes na avaliação da mobilidade, sem envolver a Proteção Civil Municipal, onde já existia um acumulado de experiência de anteriores planos de Contingência e sem envolver devidamente a PSP.

E, já agora, sem cuidar de tendo o Conselho Municipal de Segurança a funcionar, com as comissões que deveriam ao longo deste três anos de paragem ter sido criadas, poderia a de "segurança rodoviária" ter algo a refletir sobre esta opção...

A total ausência de avaliação do risco, para as pessoas, bens e qualidade da vida urbana, visível nesta decisão, contrasta com o caminho feito, também a nível de mobilidade e planos de contingência, produzidos para as Festas dos Tabuleiros de 2011 e 2015, sendo que nesta última, com a colaboração da pós-graduação do IPT em "cidades inteligentes", foi inclusivamente desenvolvida uma apliacação (App), designada SmartFest, que monitorizou em tempo real toda a circulação e estacionamento na cidade.

A existência de soluções tecnológicas, servidas pelo saber acumulado, quer da Feira, quer da engenharia e da proteção civil do Município, teria obviado a este monumental erro, o qual acabou por ser mitigado, com a  decisão posterior de abrir por algumas horas - especialmente durante as manhãs, da via ascendente (Oeste-Este) desta estrada nacional, mas que não desfez o erro inicial.

Mais.
Uma adequada avaliação de risco, baseada num SWOT validado, poderia ter colocado em "teste" uma outra solução de ocupação que passaria por concentrar toda a Feira a sul da referida EN110, desenvolvendo-se do Mercado, parque do Centro de Emprego, envolvente à Igreja de Santa Maria e Flecheiro. Tal opção teria tirado partido mais eficaz das duas pontes aí existentes, uma apenas pedonal e outra inserida na Avenida Luis Bonet, que se teria constituído, não como um constrangimento à mobilidade da cidade - como foi o encerramento da EN110, na ponte nova, mas sim como uma via de serviço entre os diferentes locais da Feira.

Enquanto se desenrolarem as obras na Várzea Grande e, após estas, se politicamente for essa a decisão, tal abordagem reduzirá os impactos na vida da cidade, confinando a Feira num espaço que, a meu ver, até tem essa vocação.

Aliás, continuo sem vislumbrar o porquê de não se realizarem na envolvente ao Mercado Municipal, a generalidade dos eventos da cidade, entre o antigo Festival do Frango e a Festa da Cerveja,  ou outros que criassem animação de Verão, aproveitando a Tenda, a qual tem indiscutíveis vantagens para utilizações desse tipo, com um impacto muito menor na zona turística da cidade.

Em conversa com alguns dos responsáveis pelos restaurantes da Feira, foi  comum a todos eles da vantagem da utilização da Tenda para este fim e, fora o ruído da pista de carros de choque, que poderia ter tido outra localização mais próxima da Ponte Arantes de Oliveira (Ponte Nova), funcionou em pleno.

A utilização do passadiço sobranceiro ao Rio, mostrou que a extensão da Feira pela margem direita até ao Flecheiro funcionaria e enquadraria melhor - como num passado não muito distante (até 2008), uma zona de vendas complementar.

Ou seja e em resumo:
- Esta localização da Feira funciona, colocando a mesma numa área mais estruturada e vocacionada para este tipo de eventos, do que a Várzea Grande, que era um amontoado de pó e, dado que a opção política do projeto a concurso inviabilizará (erradamente) a realização de grandes eventos aí, pode ser esta uma localização viável para os próximos anos;

- A Feira não precisa do parque de Estacionamento de Santa Iria, nem do encerramento da EN110, entre a Rotunda Alves Redol e a Rotunda dos Bombeiros, podendo estender-se pela envolvente à Avenida Luis Bonet e nos terrenos a sul da Ponte do Flecheiro;

- Em próximas eventualidades de alterações significativas da mobilidade da cidade, deve haver avaliação de risco e o devido envolvimento da engenharia e proteção civil Municipal, pois com a saber acumulado, muitos dos constrangimentos verificados poderiam ter sido evitados.


Luis Ferreira, ex-vereador da Proteção Civil

17.10.18

Até outubro - o que têm preferido os leitores...

9º - 3573 visitas - Pintar de imediato o muro junto ao parque desportivo (2017)
10º - 3568 visitas - Comandantes dos Bombeiros Municipais de Tomar - levantamento histórico (2018)

11º - 3546 visitas - Bimbalhão - Aquele que não sabe, nem sonha... (NOVO)
12º - 3458 visitas - O risco de colapso da Barragem, o quê? (NOVO)
13º - 3454 visitas - Construir casas junto à GNR em Tomar: para acabar de vez com o Flecheiro (2016)
14º - 3435 visitas - Deixar de sonhar a cidade (abordagem crítica ao estudo prévio da Várzea Grande)  (2018)
15º - 3382 visitas - A promoção de Tomar e as polémicas "idiotas" (2018)

16º - 3232 visitas - Do fim do Bloco de Esquerda, á Nova Política de Pedro Santana Lopes (NOVO)
17º - 2923 visitas - Pedro Marques de novo ao assalto no PS (2017)
18º - 2868 visitas - Feira de Santa Iria, o grande falhanço da gestão da CDU (2016)
19º - 2697 visitas - Porque razão mantemos o Parque de Campismo fechado? (2018)
20º - 2577 visitas - As opções de hoje que vão complicar a vida na Cidade de Tomar, no futuro (NOVO) 

21º - 2259 visitas - E o Presidente da Câmara é... Anabela Freitas (2017)
22º - 2015 visitas - Lojas Maçónicas nas proximidades de Tomar, na implantação da República (2014)
23º - 2011 visitas - Tomar em sério risco, neste início de Agosto (NOVO)
24º - 1955 visitas - A nossa região (Lisboa e Vale do Tejo) (2009)
25º - 1964 visitas - Portugal é o porto do Graal (2006)

26º - 1890 visitas - Uma mentira repetida pode parecer verdade, mas não deixa de ser mentira (2016)
27º - 1799 visitas - Com financiamento comunitário, entrada de Tomar vai ganhar alma (2016)
28º - 1792 visitas - Quando se tentou que todas as crianças do Concelho, tivessem acesso ao Cinema (NOVO)
29º - 1765 visitas - Revisão do PDM de Tomar, propõe triplicação da cidade (2016)
30º - 1731 visitas - Pelouros entregues só ao PS, é não perceber nada do que se passa por aqui (2017)

31º - 1675 visitas - Resumo das previsões das eleições para as freguesias (a 28/9/2017) (2017)
33º - 1595 visitas - Estradas de Portugal esclarece isenções no IC3/A13, tarde e a más horas (2011)
34º - 1553 visitas - Almeirim paga aos fornecedores em 2 dias. para quando em Tomar? (2018)
36º - 1493 visitas 3 (três), 5 (cinco), 7 (sete)... Uma explicação Maçónica (2016)
37º - 1413 visitas - In memorium - Luis Boavida deixou-nos (2018)
38º - 1412 visitas - Venda do Convento de Santa Iria, é ilegal (2017)
39º - 1399 visitas - Hoje é dia do bombeiro português (2011)
40º - 1385 visitas - Só é vencido, quem desiste de lutar (2016)
41º - 1383 visitas - The knigths Templar region of Portugal (2016)
42º - 1281 visitas - Os homens também choram (2016)
43º - 1257 visitas - Para salvar o Hospital de Tomar (2017)
44º - 1253 visitas - Abrantes é mesmo a caminho de onde? (2017)
45º - 1222 visitas - Comboio Turístico está de novo em funcionamento (2013)

12.10.18

O risco de colapso da Barragem, o quê?

):
E ninguém pergunta pelo "Plano de Emergência para o risco especial de colapso da Barragem", a qual já ultrapassou a tempo de vida útil - aquando da sua construção?


Alguém sabe o que fazer na eminência de um colapso da Barragem?

Uma Barragem que tem armazenadas na sua albufeira cerca de 0,9 milhões de milhões de litros de água (0,9 x 10^12 dm3), uma profundidade junto ao coroamento de mais de 95 metros de água e se estende por mais de 50km, numa bacia hidrográfica (do Tejo), onde vivem mais de 2 milhões de pessoas (abaixo de 50m acima do nível do mar), não precisa de estudo e análise?

Sabem as populações da freguesia da Asseiceira e de Paialvo, que a onda primária do colapso as submergiria? 
Que parte da inundação, afetaria todo o vale do Nabão até à Cidade, incluindo partes das freguesias de S.Pedro e da Madalena?
Que vilas e cidades do Ribatejo, a começar pelo Entroncamento desapareceriam, pura e simplesmente?

Pois!
Não chega de andarmos a brincar ao ambiente, à segurança e ao planeamento?
Querem falar a sério?
Então façam primeiro o que lhes compete, ok? 
Notícia Rádio Hertz




TOMAR – Governo quer aumentar faixa de protecção da albufeira de Castelo de Bode. Ainda há moradias ilegais… e fossas a despejar directamente para o rio

As freguesias de Serra/Junceira, São Pedro e Olalhas estão em suspenso face às alterações propostas pelo Ministério do Ambiente tendo por base o Plano Ordenamento da Albufeira de Castelo de Bode. Está em causa a passagem do limite da área de proteção à albufeira dos atuais 500 para os 1000 metros. Caso este estudo seja, efectivamente, implementado, então estes territórios vão ficar ainda mais condicionados e a fiscalização irá apertar, de tal forma que algumas moradias – cuja construção se encontra ilegal – correm o risco de ser demolidas. A Hertz ouviu os autarcas das freguesias em causa, sendo que ficou o receio perante estas possíveis mexidas e o alerta para a ilegalidade em torno da esmagadora maioria das fossas existentes no local… que despejam para o rio.
Jorge Rosa, presidente da Junta de Olalhas, disse estar à espera de uma reunião com a Câmara de Tomar para obter esclarecimentos de um assunto que classificou como muito grave.
Por exemplo, Américo Pereira, presidente da Serra/Junceira, classificou as alterações propostas como «um caminho preocupante e errado e um incentivo à clandestinidade»
Na freguesia de São Pedro o receio é também grande. A presidente de Junta, Lurdes Ferromau, lembra que a ser aplicado aquilo que é pretendido pelo Plano serão ainda mais acentuados os condicionalismos já colocados ao Interior.

6.10.18

A Gala Internacional de Acordeão dos Templários realizou-se em Tomar. Sabia disso?

Em 2010, esse ano fatídico em que várias coisas aconteceram - sendo assim em todos os anos, certo? - deu-se início em Tomar à Gala Internacional de Acordeão dos Templários, numa parceria entre o Município de Tomar e o Atelier do Acordeão, sediado em Ferreira do Zêzere, onde pontua o conhecido acordeonista Bruno Gomes.

Perceba-se o porquê de ter trazido para Tomar tal evento. Depois de anos e anos de pseudo-elitização de Tomar, havia que popularizar a atividade cultural, uma vez que a esmagadora maioria da população do Concelho de Tomar não pertencia àquela classe social para a qual parte das atividades culturais era promovida.

Foi então que, com a equipa técnica do Turismo e da Cultura, por mim coordenada enquanto seu responsável político, com o inestimável contributo do então adjunto Leonel Graça, foi possível lançar base de diversas iniciativas que ainda hoje perduram, passados oito anos, como sejam o Mercado da República, que se realiza no domingo dia 7 de outubro, em parceria com a Comissão Técnica dos Templários da Federação do Folclore Português e o Festival Internacional de Acordeão dos Templários.

Claro que, dado que este tipo de iniciativas não são pelas "pseudo elites" da Cidade vistas como atividade cultural, apenas nos rodapés das divulgações elas aparecem. Aliás, hoje parece ser mais lógico gastar 85.000€ numa promoção televisiva de um não-concurso de gastronomia (com a única vantagem de comprar 2 horas de televisão na Praça da República em horário nobre, com cerca de 1 milhão de espectadores), do que prover ao devido apoio e incentivo às atividades culturais endógenas, diversificadas e para diferentes públicos.

Bem, mas para isso, tem de se olhar e ver e não apenas gerir ao sabor do vento e da moda, a maioria das vezes apenas de duvidoso gosto, como aquele mural inenarrável junto ao parque desportivo.

Assim, desde 2010, a Gala Internacional de Acordeão dos Templários realizou-se no Cine-Teatro em Tomar, sendo certo que no primeiro ano (2010), teve dois espectáculos, com mais de 75% de assistência do Cine-Teatro e uma master class realizada durante um dia. Intervenção e disseminação cultural, com cabeça, tronco e membros.

Bem, basta ver que depois das edições de 2014 e 2016, também este ano se realizou no sábado (29 de setembro), quase sem assistência, porque quase sem promoção. Está visto que voltámos à perspectiva da cultura elitizada de anos idos e Tomar está de novo a andar para trás, a nível da oferta diversificada de índole cultural. 

Já sabíamos da total falta de escrúpulos da gestora topo da nossa autarquia, com condenações em Tribunal por mentir a este e por não cumprir as suas determinações, da sua visão economicista da cultura e do desporto, da sua incultura sobre o quê e o porquê de estarmos neste território ontem e hoje, mas sempre esperámos que se pudesse rodear de quem pudesse fazer a diferença. Puro engano.

Assim, aqui fica a divulgação de Almeirim, para que possamos perceber a diferença entre o nada, onde há tudo e o esforço de onde, quase não há nada...

Tomar, merece isto?

3.10.18

"Uma gaivota voava, voava" - Ermelinda Duarte

A histórica canção "Somos Livres", no original de Ermelinda Duarte, que fez furor em 1974-5, sendo um dos grandes símbolos musicais do 25 de Abril e dos anos que se lhe seguiram.

30.9.18

Portugal precisa de (muitos) refugiados

Para o álbum: a emigração cria riqueza e a extrema direita é, além de socialmente estúpida, absolutamente burra, sob o ponto de vista económico...


Diário de Notícias, de hoje [30/9/2018]



A norte de Aveiro, gente que fugiu da Venezuela está a encher fábricas, escolas e casas - e a revelar-se o novo motor económico da região. Enquanto o país olhava para a Madeira, acontecia um outro fenómeno no centro do país.


Ricardo J. Rodrigues
30 Setembro 2018 — 06:21



Crispim Rodrigues anda numa roda-viva. Todos os dias o seu telefone toca com notícia de que há mais gente a chegar no avião de Caracas. Na maioria dos casos, trazem uma mão à frente, outra atrás, mais uma mala com a vida que conseguiram encaixotar na fuga. "Que venham cá, então", anuncia para o outro lado da linha. "Um dia, dois no máximo. É esse em média o tempo que demoro a arranjar-lhes emprego."

Em teoria, Crispim é o responsável de relações exteriores da SEMA, uma associação que reúne três mil empresas de cinco concelhos do norte do distrito de Aveiro: Albergaria-a-Velha, Estarreja, Ovar, Murtosa e Sever do Vouga. Mas, desde que arrancou 2018, tornou-se uma espécie de salva-vidas para os que desaguam numa terra estranha. "Desde janeiro já arranjei trabalho a pelo menos 300 pessoas. Todos os dias chegam mais e ainda bem. Precisamos deles como de pão para a boca."


Crispim Rodrigues diz que a melhor maneira de apagar a dor de ter de fugir de um país é construir outro.

© Rui Oliveira / Global Imagens


Nos últimos meses, o regresso de portugueses emigrados na Venezuela e lusodescendentes tem crescido exponencialmente. "Quantificar um número rigoroso é complexo, a grande maioria tem passaporte português e não é sujeita a controlo à entrada", admite o porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros.

As estimativas apontam para quatro mil pessoas na Madeira e 1500 no continente, mas o governo sabe que esses números pecam por escassez. "Só os registos de saúde madeirense contam já seis mil nomes. No continente, sabemos que há cada vez mais gente a fixar-se, sobretudo no distrito de Aveiro." A Estarreja, garante a câmara, chegaram neste ano 500 pessoas. Mas também aqui as contas são por baixo: desde o início do verão, o ritmo das chegadas tem triplicado.

Diamantino Sabina, presidente do município, não podia estar mais satisfeito: o retorno dos emigrantes está a ter um impacto tremendo na economia local, garante. "Chegam com uma enorme vontade de trabalhar e colmatam as necessidades de mão-de-obra do município. Além disso, como estão a fixar-se, potenciam a recuperação das casas desabitadas nas freguesias, e até as novas construções. Tudo isto está a mexer muito com a nossa terra."

Na Madeira, onde há o dobro dos regressos, não acontece o que se vê aqui. "Claro que também há muita gente competente no Funchal, mas nas ilhas vive-se muito do turismo, enquanto este é o coração industrial do país", diz José Valente, presidente da SEMA. "Ao longo dos anos de crise, a juventude emigrou e deixou-nos com um sério problema de falta de mão-de-obra, ao ponto de termos empresas que não se desenvolviam mais por falta de trabalhadores. Estes venezuelanos e luso-venezuelanos vêm fazer os trabalhos que os portugueses não querem. São um balão de oxigénio extraordinário para o motor industrial português. Estão a resolver uma falha."

Crispim ouve e concorda, ele anda a salvar vidas e essas vidas andam a salvar a sua terra. Tem 67 anos, foi aos 5 para Caracas e regressou passados 40. Nunca perdeu o sotaque. "Fui camarada do Hugo Chávez no exército", afiança, "fiz juramento de bandeira e amo tanto a Venezuela como Portugal." À porta da sua casa há um mastro onde todos os dias hasteia as bandeiras dos dois países.

Pertence à geração dos que partiram sem nada e é ver a história a repetir-se no sentido contrário que o faz passar horas a distribuir empregos, tratar de certidões, inscrever os que chegam no SEF, no consulado, no centro de saúde. Há amigos que lhe dizem que ele é o rio que se desviou do centro de Estarreja: mais cedo ou mais tarde, os caminhos dos que chegam acabam todos por desaguar nele. Encolhe os ombros, tem outra teoria. "Sou só o homem do meio. Estou entre as pessoas que começam a vida de novo e uma cidade que está a nascer outra vez."
Venezuelíssimo trabalho

Snack-Bar Kanayma. Café Venezuela. Caracas Grill. Edifício Maracay. Confeitaria Miranda. Charcutaria Bolívar. Quem percorre hoje as ruas de Estarreja encontra constantemente as marcas de uma fuga antiga. Nas décadas de 1950 e 1960, milhares de habitantes saíram desta região para a Venezuela. Se neste lado do Atlântico sobrava fome e ditadura, do outro havia a promessa de um novíssimo eldorado.

Estes estabelecimentos são dos primeiros que partiram, e depois, com os bolsos cheios, quiseram voltar. Os que agora regressam são os seus filhos, netos, às vezes bisnetos. Em regra não trazem grande coisa consigo além da amargura de uma saída forçada.

Vítor está a aprender a chamar-se Santos, porque até aqui sempre foi de los Santos. Aos 58 anos, a vida começou do início. A sua história é a de toda a gente, pais que emigraram para fugir do campo, ele com oportunidade de estudar e compor a vida. Fez-se designer gráfico, tinha uma empresa com quatro funcionários. "Vendi tudo há um ano, convencido de que daria para trazer a minha mulher e os meus filhos comigo. Mas tudo o que tínhamos só valia uma passagem de avião." Então veio ele, que já tinha passaporte português, tentar refazer a vida e ganhar dinheiro para puxar a família para Portugal. Chegou há três meses.

No dia em que chegou encontrou emprego na Prozinco, um dos maiores empregadores do concelho. Estarreja acolhe um dos maiores parques industriais do país - petroquímicas, fábricas de transformação, indústria de plásticos e farmacêutica. Esta empresa em particular tem 600 funcionários e trabalha em duas áreas essenciais, que exporta para todo o mundo: metalomecânica e recuperação de bilhas de gás.

Manuel Matos, dono da empresa, já deu emprego a uma vintena de luso-venezuelanos desde que o ano começou. "Mais viessem. Temos uma necessidade tremenda de mão-de-obra, sobretudo especializada. Estes trabalhadores têm um nível de educação superior à média e, mesmo quando esta não é esta a sua área, aprendem-na com facilidade."

Manuel Matos, dono da Prozinco, já deu emprego a uma vintena de luso-venezuelanos desde que o ano começou. "Mais viessem.""

© Rui Oliveira / Global Imagens


Vítor ouve-o e agradece a oportunidade, se não fosse aquele emprego, conseguia lá mandar dinheiro à família. Fá-lo pelo mercado negro, como todos, depositando dinheiro em contas de quem tem euros e bolívares - quase ninguém.

"Estás a viver onde?", pergunta o filho do dono, Paulo. "Numa pensão aqui a dois quilómetros, venho a pé. Mas sabe, estou muito agradecido por esta vida. Não tenha pena de mim, patrão, a minha família está viva e agora pode comer." Naquele momento, numa fábrica onde o trabalho é duro e os homens de ferro, toda a gente dá por si a agarrar as lágrimas. Paulo Matos limpa o rosto e atira: "Tenho ali uma bicicleta que ninguém usa. Leva-a tu, anda."
"A Venezuela foi o meu sonho, Portugal a minha salvação"

Manuel Augusto, Judith e Manel na sua casa em Salreu. "A Venezuela foi o meu sonho, Portugal a minha salvação."

© Rui Oliveira / Global Imagens


A meia dúzia de quilómetros fica Salreu, que os habitantes locais gostam de dizer que é a terra mais venezuelana de Portugal e normalmente utilizam este argumento: o Funchal pode ter mais gente em quantidade mas, aqui, casa sim casa não é albergue latino. É também o lugar onde nasceu Manuel Augusto, 55, que aos 17 emigrou para a Venezuela e voltou no final do ano passado.

Trouxe consigo a mulher, Judith, e os dois filhos - João Manuel, 27, que já saiu de casa para viver com a namorada, e Manuel Augusto, 11, aluno exemplar. A mãe era professora de espanhol, o pai era dono de uma padaria. Agora ela trabalha com idosos na Santa Casa e ele é padeiro. "Nos últimos meses já não trabalhava porque tinha medo dos assaltos quando ia para a escola", diz ela. "Além disso, tínhamos de passar horas nas filas de racionamento se queríamos comida. A vida estava a tornar-se insuportável."

Manuel ainda estranha o pão, que aqui é feito sem manteiga nos tabuleiros. "Mas há pão, e eu lá já não o conseguia produzir porque deixámos de ter acesso a farinha." Ao longo dos últimos cinco anos, foram minguando o conforto. "Tínhamos uma fazenda em Santa Teresa, com 200 hectares e criação de gado. Primeiro vendemos os animais, depois a terra, no fim já só tínhamos uma parcela da casa. Foi quando decidimos sair."

Vieram para casa dos pais dele, para onde também tinham vindo parar primos que andavam emigrados, eram dez almas numa vivenda com dois quartos. Lá arranjaram retiro próprio num edifício há muito desabitado, dizem que hoje já não sobram casas por alugar na aldeia. "Tudo o que aqui vê - móveis, eletromésticos, até a cama - foi-nos oferecido pelas pessoas da aldeia", e Judith comove-se com a generosidade. "Sinto que nos querem cá, dizem sempre que nos querem cá, e eu às vezes até me sinto mal por ter tantas saudades de casa."

Manuel ouve a mulher e baixa o rosto, também ele tem saudades daquele calor todo. É por isso que naquela casa se cumpre todos os dias uma viagem a um país que, diz ele, já não existe. "Eu trabalho de noite, a minha mulher de dia, o miúdo está na escola. Só temos a hora de jantar para voltarmos à nossa Venezuela, e é isso que fazemos todos os dias. Aquele país que foi o meu sonho. A Venezuela foi isso, foi o meu sonho. E Portugal, pronto, foi a minha salvação." Judith olha para o marido e dá-lhe um beijo na testa. Depois, pega no tacho e traz o guisado para a mesa. Estão tristes. E estão felizes.
Como se fosse em casa

Sexta-feira é dia de arepas na Pastelaria Avenida, estabelecimento de Salreu que é ponto de encontro da comunidade luso-venezuelana. O café tem uma bandeira do país por cima do balcão, cerveja Polar dentro do frigorífico e sotaque caribenho nas mesas. Há dois meses começaram a fazer ali as tradicionais sanduíches venezuelanas, e hoje servem mais de 50 por dia, além de empanadas e tequeños, queijo enrolado em massa.

Arepa é servida na pastelaria Avenida todas as sextas. "Pelo menos em Portugal há farinha."

© Rui Oliveira / Global Imagens


Fátima Tavares, dona do estabelecimento, replica quando se lhe pergunta se são iguais às de Caracas: "Sabe o que me dizem todos os que aqui estão a chegar? Que pelo menos em Portugal há farinha para fazer arepas."

O verão trouxe uma leva de gente dos trópicos e isso nota-se no comércio local. O Supermercado Couto, no centro de Estarreja, é hoje um ponto de peregrinação para quem mata no estômago as saudades da Venezuela. "Eu há já uns anos que introduzi aqui estes produtos. Agora que a procura aumentou o meu problema é arranjar quem me abasteça as necessidades", diz António Couto, dono da casa desde 1985.

É homem daquela geração que emigrou e voltou para montar negócio. "No início não havia onde arranjar nada venezuelano, mas de há dez anos para cá conseguimos importar muita coisa, sobretudo via Colômbia. As restrições do Chávez, primeiro, e do Maduro, depois, criam muitas dificuldades em irmos diretos à fonte."

Nada vende mais ali do que a harina arena, farinha de milho com que se cozinham as arepas. Mas também há folhas de bananeira congeladas para quem quiser fazer a hallaca, um refrigerante chamado maltín e uns canudos de chocolate chamados pirulín. Aqui não se vendem bananas, vendem-se plátanos. Não há rum, há ron. E se o rum tiver escrito no rótulo que se chama Pampero, no expositor está identificado como caballito frenado, que é como toda a gente o conhece na Venezuela.

Os portugueses da Venezuela costumam dizer que a vida económica da comunidade do país se dividia em duas categorias. Os madeirenses tornaram-se sobretudo donos de minimercados, supermercados e hipermercados. Às gentes do continente estava reservado o negócio da padaria. E elas florescem hoje na região, acrescentando cachitos à montra de salgados e florestas negras à dos doces.

"Às vezes sinto que esta terra começa a tornar-se um território misto, metade Venezuela, metade Portugal", diz Crispim Rodrigues, o angariador de empregos da comunidade. "E isso é muito bonito, é uma lição de que as coisas não precisam de ser branco ou preto, uma coisa ou outra." Para um minuto para pensar enquanto ajeita o bigode. "Sabe como é que se mata a dor de ter de fugir de um país?" - e deixa o silêncio cimentar a solenidade da sua teoria. "Construindo outro."

Miúdo regresso graúdo

Aula de apoio aos novos alunos vindos da Venezuela. Todos os dias chegam novas crianças à escola de Estarreja.

© Rui Oliveira / Global Imagens


Hoje, na secundária de Estarreja, é dia da primeira aula de Português - língua não materna. Todos os miúdos sabiam de antemão que ali estaria a imprensa, e todos pediram autorização aos pais para dar cara e voz às suas questões. Num universo de 2877 alunos inscritos, 26 já foram encaminhados para aqui. São venezuelanos. "Mas sabemos que são mais, porque ainda falta despistar muita gente. E há os adultos, também abrimos uma turma à noite," diz Etelvina Soares, a professora.

Aquela aula não é só uma aula. No quadro todos escreveram aquilo de que sentiam mais falta, e se Jorge tinha saudades da praia de los Roques, Andrea ainda não sabia lidar com a falta que o seu amigo Simón lhe faz. Elizabeth sente falta do calor da sua gente, Fabíola da Laedy, o café onde se encontrava com os amigos.

Quando chegaram, o diretor da escola, Jorge Ventura, deu-lhes as boas vindas e disse-lhes que tinham direitos iguais a toda a gente. "Mas temos de ter muito cuidado para que não se fechem num gueto", diz a professora Etelvina, que pela primeira vez este ano vai ter de desenvolver um programa para misturar toda a gente. Mas é quando falam dos pais que se desfazem. "O meu pai era cirurgião, agora está numa fábrica", conta Andrea. Todos contam histórias idênticas. Numa fuga de infância, é preciso crescer depressa.

24.9.18

As decisões judiciais que nos obrigam a pensar

Se fosse um qualquer político a tomar decisão, irresponsável, como a que estes dois juizes - uma juíza e um juiz, tomaram, não faltaria.


É por estas e por outras que precisamos, rapidamente, de começar a eleger e a poder afastar, das nossas comarcas e relações, juizes e magistrados judiciais, responsabilizando-os pelas aberrações que todos os dias decidem, em nosso nome.

O poder reside no povo e a justiça tem de estar ao alcance desse poder e não, como até hoje, regular-se a si própria.


Até esse dia, continuamos a ter uma democracia imperfeita.

Aqueles que entendem que APENAS os eleitos pelo povo são responsáveis por algum descrédito dos sistemas políticos, desenganem-se: também o poder judicial, à margem de qualquer controlo popular, está a colocar em causa o respeito dos cidadãos, quer pelo Estado de direito, quer por arrastamento, na própria democracia.

Ou pomos rapidamente mão nisto ou, os Trump's, os Putin's, as Le Pen's, os Venturas ou Bolsonaros deste mundo, vão continuar a parecer e a desenvolver-se como cogumelos. 

A esquerda tem de deixar de ser conservadoramente imobilista e revolucionar o sistema judicial, para que ele funcione, prenda os criminosos e atue com mão forte. O Estado TEM DE SE DAR AO RESPEITO, pois só assim a democracia sobreviverá!

Deixemos, à esquerda, de ser anémonas e defender o indefensável!

©Todos os Direitos de Autor reservados nos termos da Lei 50/2004, de 24 de agosto.
O autor autoriza a partilha deste texto - ou de excertos do mesmo-, desde que, se mantenha o formato original e mencione, obrigatoriamente, a autoria do mesmo.




PUBLICO.PT
Vítima foi violada por dois homens quando estava desmaiada. Relação do Porto entendeu que os criminosos não devem ser condenados a uma pena de prisão efectiva.