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27.10.26

O impacto do Alqueva (parece que) NÃO resultou. O que se passou?

 

Alqueva gerou riqueza, mas o Alentejo continua desigual e a perder população

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Estudo da Universidade de Évora e do Instituto Superior Técnico identifica um paradoxo no empreendimento de Alqueva: apesar da modernização agrícola, do crescimento das exportações e do impulso ao turismo, persistem problemas de envelhecimento demográfico, precariedade laboral, concentração da propriedade e pressão ambiental.

O Alqueva transformou a agricultura e a economia do Alentejo, mas não conseguiu resolver todos os problemas que justificaram a criação do empreendimento. A população continua a diminuir, o envelhecimento mantém-se elevado e uma parte significativa da riqueza gerada não permanece na região. Estas são algumas das conclusões de um estudo de Carlos Gonçalves, da Universidade de Évora, e Jorge Gonçalves, do Instituto Superior Técnico da Universidade de Lisboa, publicado em 2026 na revista científica Sustainability.

“O Empreendimento de Fins Múltiplos de Alqueva foi criado com uma grande ambição: ajudar a desenvolver o sul de Portugal. Prometia modernizar a agricultura, fixar população, criar emprego e reduzir desigualdades entre territórios”, recorda Carlos Gonçalves, investigador do Centro Interdisciplinar de Ciências Sociais da Universidade de Évora (CICS.NOVA.UÉvora).

O artigo, intitulado Promises and Deliveries in the Alqueva Paradox: Neoextractivism and the Limits of Territorial Cohesion Policy in Southern Portugal, analisa até que ponto essas promessas se concretizaram. Para esse efeito, os investigadores recorreram à análise documental, a dados dos censos, a indicadores económicos e sociais e ao estudo dos impactos do projeto no território.

Os resultados revelam uma realidade contraditória. Alqueva aumentou a área de regadio, melhorou a segurança no abastecimento de água, impulsionou as exportações agrícolas, contribuiu para a produção de energia renovável e deu nova visibilidade turística à região.

Contudo, os ganhos económicos e produtivos não foram acompanhados de uma transformação equivalente das condições sociais e demográfica e muitos dos problemas que o projeto prometia resolver continuam presentes. “A população continua a diminuir, o envelhecimento mantém-se elevado, muitos trabalhadores agrícolas migrantes vivem em situações precárias, a terra está cada vez mais concentrada em grandes explorações, grande parte da riqueza gerada não fica na região e as pressões sobre o ambiente têm aumentado”, destaca Carlos Gonçalves.

Para o investigador, esta contradição evidencia os limites de uma estratégia de desenvolvimento centrada na construção de grandes infraestruturas, visto que “uma grande obra pública pode ser tecnicamente bem-sucedida e, ainda assim, não garantir um desenvolvimento justo e equilibrado para o território. No caso de Alqueva, os benefícios foram importantes, mas não chegaram de forma suficiente às populações locais”.

A investigação não se limita a avaliar os resultados económicos do empreendimento: analisa também a forma como os benefícios da transformação agrícola são distribuídos e em que medida a riqueza produzida permanece no território.

A expansão do regadio e a modernização da agricultura podem aumentar a produtividade e reforçar a capacidade exportadora, mas não garantem, por si só, que os ganhos se traduzam em melhores condições de vida para as populações. A concentração da propriedade, o peso dos grandes investidores e a precariedade laboral levantam questões sobre a distribuição das oportunidades e dos benefícios gerados.

“O problema não está apenas na infraestrutura em si. Está também na forma como o desenvolvimento foi organizado”, alerta Carlos Gonçalves.

Na perspetiva deste especialista em planeamento regional e urbano, são necessários melhores mecanismos de redistribuição da riqueza, maior coordenação entre instituições, mais participação local e políticas que assegurem que uma parcela mais significativa do valor criado permanece na região. Sem estas condições, os benefícios podem concentrar-se sobretudo nos grandes investidores e em interesses externos.

É neste contexto que os investigadores recorrem ao conceito de neoextrativismo, presente no título do artigo recentemente publicado. O conceito permite analisar modelos de desenvolvimento assentes na exploração intensiva de recursos, nos quais a riqueza produzida pode não beneficiar proporcionalmente as comunidades e os territórios onde essa atividade ocorre.

As conclusões do estudo ultrapassam o caso do Alentejo e colocam questões relevantes para as políticas de desenvolvimento regional em Portugal e na Europa. As grandes obras públicas podem criar condições para a transformação económica, mas o seu sucesso não deve ser avaliado apenas pelo investimento realizado, pela capacidade instalada ou pelo crescimento da produção.

“O caso de Alqueva deixa, por isso, uma lição importante para Portugal e para a Europa, porque construir grandes infraestruturas não chega. Para que haja um verdadeiro desenvolvimento regional, é preciso garantir que os projetos melhoram efetivamente a vida das pessoas que vivem nesses territórios”, defendem os investigadores do estudo.

No estudo considera-se que o desenvolvimento territorial exige uma abordagem que vá além dos resultados económicos e produtivos: “Alqueva trouxe água, agricultura modernizada, energia e turismo. Mas o desenvolvimento territorial exige mais do que isso. Exige emprego digno, serviços públicos, equilíbrio ambiental, justiça social, participação das comunidades e uma distribuição mais justa dos benefícios gerados.”

Mais do que questionar a importância de Alqueva, o estudo propõe uma reflexão sobre o modelo de desenvolvimento construído em torno do empreendimento. O desafio consiste em garantir que a modernização económica se traduz também em coesão social, sustentabilidade ambiental e melhores perspetivas de vida para quem habita o território.Parte superior do formulário

23.10.26

Corredor cultural entre o Alentejo (PT) e a Extremadura (ESP)

 

Universidade de Évora lança «A Fronteira da Cultura», que cria um corredor cultural entre o Alentejo e a Extremadura

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A Universidade de Évora promoveu, no dia 19 de outubro, a sessão pública de lançamento da iniciativa “A Fronteira da Cultura”, que contou com a assinatura da Declaração de Évora, que materializa um corredor cultural transfronteiriço entre o Alentejo e a Extremadura, entre Portugal e Espanha.

A iniciativa, que pretende afirmar o território transfronteiriço como um espaço de criação cultural e de cooperação ibérica, na prática irá promover a partilha de recursos culturais e facilitar a circulação de músicos, exposições, peças de teatro e cinema entre as duas regiões, criando oportunidades de colaboração e aproximando instituições, agentes culturais e públicos de ambos os lados da fronteira.

A sessão de lançamento da iniciativa contou com intervenções de António Candeias, Reitor da Universidade de Évora, de Antonio Sáez Delgado, Vice-Reitor para a Cultura e Sociedade da Universidade de Évora, e de Representantes das entidades parceiras, nomeadamente, de Ricardo Pinheiro, presidente da CCDRA – Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Alentejo, de José Luís Gil Soto, Secretario General de Cultura da Junta de Extremadura e de Rafael Mateos, Alcalde do Ayuntamiento de Cáceres.

“Um espaço de proximidade humana e cultural”

Na vídeo mensagem dirigida aos participantes, dado estar na China integrado na Comitiva do Ministro da Educação em visita àquele país, o Reitor da Universidade de Évora, António Candeias, destacou o potencial histórico e cultural deste território e as oportunidades que oferece para o desenvolvimento de novas formas de colaboração. Entre Évora, Estremoz, Elvas, Badajoz, Mérida e Cáceres, existe, nas palavras do Reitor, “um espaço de proximidade humana e cultural” que reúne condições únicas para “desenvolver novas formas de cooperação”.

António Candeias salientou que a iniciativa pretende afirmar esta região transfronteiriça como um “espaço cultural partilhado, capaz de afirmar uma identidade própria, atrair criadores e estimular novas dinâmicas artísticas e culturais”. O objetivo passa também por conquistar “uma posição diferenciada no panorama cultural ibérico e europeu”, acrescentou.

“A cultura tem uma capacidade extraordinária para aproximar pessoas, criar oportunidades e transformar os lugares onde vivemos”, sublinhou António Candeias, defendendo que o trabalho conjunto “poderá transformar este corredor cultural num território de referência, reconhecido pela vitalidade da sua criação e pela capacidade de estabelecer pontes entre comunidades, instituições e países”.

O Reitor destacou ainda que a força do projeto dependerá da diversidade dos parceiros envolvidos, da partilha de recursos e experiências e da confiança mútua, essenciais para transformar ideias comuns em realizações concretas.

A participação da Universidade de Évora reflete, segundo o Reitor, o compromisso da instituição com a valorização cultural do Alentejo e o desenvolvimento regional, através de uma ligação ativa à sociedade e da construção de parcerias que ultrapassam fronteiras geográficas e institucionais. “A Universidade de Évora assume este compromisso com entusiasmo e com um profundo sentido de responsabilidade”, afirmou António Candeias, reiterando a visão de uma Universidade aberta à sociedade e capaz de contribuir para um futuro “mais criativo, mais inclusivo e mais aberto ao mundo”.

“Estamos a iniciar um caminho que queremos longo e fecundo”, concluiu o Reitor, apelando à construção de um projeto comum capaz de afirmar o potencial cultural deste território transfronteiriço.

Uma fronteira marcada pela Cultura

Já Antonio Sáez Delgado, Vice-Reitor para a Cultura e Sociedade da Universidade de Évora, a iniciativa representa a construção de “uma espécie de aliança estratégica” entre entidades culturais das duas regiões, assente na disponibilização e partilha de recursos. A ambição é afirmar a fronteira luso-espanhola como um território reconhecido pela qualidade e diversidade da sua produção cultural. 

“Temos uma grande capacidade para criar cultura e para produzir cultura de qualidade”, sublinhou o Vice-Reitor em declarações aos jornalistas, defendendo a necessidade de valorizar esta identidade cultural e de reforçar o reconhecimento do território no contexto ibérico.

“Ganhamos a possibilidade de transformar a cultura num espaço de conhecimento do outro, que é diferente de nós”, afirmou o responsável, destacando a importância da cultura enquanto instrumento de aproximação entre pessoas e territórios.

Para Antonio Sáez Delgado, a iniciativa procura também “contrariar a perceção destas regiões como espaços periféricos”, afirmando-as como territórios com capacidade para assumir um papel de destaque no ecossistema cultural ibérico. O nome “A Fronteira da Cultura” traduz essa intenção. Apesar de reconhecer que “a cultura não tem fronteiras”, a designação pretende, segundo o responsável, “afirmar a fronteira entre o Alentejo e a Extremadura como uma marca de identidade cultural, à semelhança de outras regiões transfronteiriças reconhecidas pelas suas dinâmicas económicas ou turísticas”.

Por seu turno, Ricardo Pinheiro salientou o “espírito de cooperação” que está presente na iniciativa, desejando que “a cooperação se materialize neste projeto em que cada entidade é mais um parceiro que está à disposição", como é o caso da CCDR-Alentejo. Que cada vez mais consigamos dar estes passos de proximidade e melhoria pelo bem comum”.

José Luis Gil Soto, Secretario General de Cultura da Junta de Extremadura, sublinhou que “a fronteira entre Espanha e Portugal através da cultura pode ser redesenhada”, desejando que “depois deste acto, consigamos fazer a ponte e que a cultura nos una em tudo o que for necessário, sendo também um motor de desenvolvimento”.

Por fim, Rafael Mateos, Alcalde Ayuntamiento de Cáceres, destacou a importância da iniciativa que une os dois lados da Fronteira, que considerou que irá “marcar um antes e um depois para ambos os lados da fronteira”, desejando que em breve Cáceres possa ser escolhida para ser a Capital Europeia da Cultura em 2031, seguindo as pegadas de Évora 2027, porque “acreditamos na importância que a cultura tem para construir todo um território”.

Uma comunidade cultural aberta à participação

“A Fronteira da Cultura” envolve mais de duas dezenas instituições e agentes culturais que assumem conjuntamente o compromisso de criar novas pontes entre territórios, entre artistas, investigadores e comunidades, estimulando projetos comuns.

Contudo, como referiu aos jornalistas Antonio Sáez Delgado, “A Fronteira da Cultura pretende crescer e acolher novos participantes. O projeto está aberto a associações, municípios, instituições e companhias artísticas que queiram contribuir para a dinamização cultural do Alentejo e da Extremadura”.

“A ideia é que esteja sempre em aberto, criar uma comunidade cultural em aberto”, explicou o responsável, acrescentando que a participação não se limita às entidades fundadoras. Companhias de teatro, dança e outras estruturas artísticas poderão também integrar esta rede, através das organizações participantes.

As Instituições que integram desde já “A Fronteira da Cultura” são: Universidade de Évora; Câmara Municipal de Évora; CCDRA – Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Alentejo; Fundação Eugénio de Almeida; MEIAC – Museo Extremeño e Iberoamericano de Arte Contemporáneo; Évora 2027; INATEL; Universidad de Extremadura; Museo Helga de Alvear; Ayuntamiento de Cáceres; Diputación de Cáceres; Museo Vostell Malpartida; Ayuntamiento de Mérida; Orquesta de Extremadura; Diputación de Badajoz; Junta de Extremadura; Ayuntamiento de Badajoz; Festival Ibérico de Cine; Fundación Ortega Muñoz; MACE - Museu de Arte Contemporânea de Elvas; Câmara Municipal de Elvas; ARTMOZ; e Câmara Municipal de Estremoz.

Na Declaração de Évora, assinada pelas instituições fundadoras, destaca-se a riqueza do património cultural, histórico e criativo deste território, que reúne universidades, museus, teatros, centros de arte, arquivos, fundações, festivais e outras instituições com uma intensa atividade cultural. A articulação entre estas entidades poderá contribuir para ultrapassar a tradicional lógica de fronteira e afirmar uma nova centralidade cultural entre Portugal e Espanha.

Com a assinatura da Declaração, as instituições subscritoras manifestam a vontade de integrar uma comunidade aberta de cooperação, promovendo o conhecimento mútuo, o contacto regular e a partilha de informação, iniciativas, criadores, investigadores e públicos. O compromisso prevê ainda a identificação de recursos, experiências, espaços e projetos que possam ser partilhados, bem como a exploração de oportunidades de colaboração que reforcem a projeção nacional e internacional deste corredor transfronteiriço.

A Universidade de Évora assume um papel ativo neste processo, disponibilizando-se para assegurar a gestão dos procedimentos associados à iniciativa.

A entrada em funcionamento do projeto está prevista para o primeiro trimestre de 2027, após a criação da plataforma digital e do banco de recursos culturais.

A primeira fase deverá centrar-se na cultura contemporânea, estando prevista uma duração inicial de aproximadamente dois anos. Numa fase posterior, a cooperação poderá alargar-se ao património, através da partilha de estruturas e recursos, e, numa terceira etapa, ao turismo, com a preparação de propostas turísticas que valorizem a oferta cultural do território transfronteiriço.

19.10.26

Criado o Instituto Confúncio da Universidade de Évora

 

Instituto Confúcio da Universidade de Évora quer ser «uma verdadeira ponte entre pessoas, culturas, instituições e gerações»

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A Universidade de Évora (UÉvora) inaugurou, a 16 de outubro, o Instituto Confúcio, um novo espaço dedicado ao ensino da língua chinesa e à divulgação da cultura e civilização chinesas. A iniciativa representa um novo passo na estratégia de internacionalização da UÉvora e no reforço das relações académicas, científicas e culturais entre Portugal e a China, criando oportunidades de colaboração entre instituições de ensino superior e de aproximação à comunidade alentejana.

O Instituto Confúcio da Universidade de Évora, que resulta de uma parceria entre a Universidade de Évora, a City University of Macau, a Beijing Language and Culture University e a Chinese International Education Foundation, assume como missão central a promoção do ensino e do estudo da língua e cultura chinesas, criando oportunidades de aprendizagem, investigação e cooperação entre as comunidades académicas e a sociedade. A sua atividade visa igualmente fomentar o diálogo intercultural, reforçar o conhecimento mútuo e consolidar os laços entre Portugal e a China.

Na cerimónia de inauguração, o Reitor da Universidade de Évora destacou a importância deste projeto para o aprofundamento de uma relação histórica de amizade e cooperação entre os dois países, sublinhando o papel das universidades na aproximação entre povos e culturas.

“Gostaria que este Instituto Confúcio fosse muito mais do que um espaço de aprendizagem de uma língua. Que fosse uma verdadeira ponte entre pessoas, entre culturas, entre instituições e entre gerações”, afirmou António Candeias, defendendo a criação de um espaço de diálogo intercultural, aprendizagem e encontro, mas também de desenvolvimento de novas parcerias académicas e científicas.

O Reitor expressou ainda o reconhecimento da Universidade de Évora à City University of Macau, à Beijing Language and Culture University e à Chinese International Education Foundation pelo apoio à criação do Instituto, salientando que o envolvimento destas instituições constitui uma “oportunidade para aprofundar institucionais, científicas e humanas que queremos duradouras” com o universo académico e cultural chinês.

Da cultura à ciência: novas oportunidades de cooperação

A ligação à China assume particular relevância no percurso de internacionalização da Universidade de Évora, que tem vindo a desenvolver projetos de colaboração com instituições chinesas em diferentes áreas do conhecimento. Neste contexto, António Candeias destacou o papel da City University of Macau como parceiro privilegiado na aproximação entre as duas comunidades académicas, tendo dado como exemplo o Laboratório Conjunto China-Portugal em Ciências da Conservação do Património Cultural, criado no âmbito da iniciativa Uma Faixa, Uma Rota. O projeto reúne a Universidade de Soochow, a City University of Macau e a Universidade de Évora, através do Laboratório HERCULES, promovendo a investigação conjunta na conservação e valorização do património cultural.

Para António Candeias, esta colaboração demonstra a capacidade da cooperação internacional para gerar conhecimento que dificilmente seria alcançado de forma isolada. Uma abordagem que a Universidade pretende alargar a outras áreas científicas e tecnológicas, nomeadamente às ciências agroalimentares, à gestão da água, à ciência de dados, às tecnologias digitais e à inteligência artificial.

Sobre a inteligência artificial, o Reitor da UÉvora salientou que “constitui uma das mais profundas transformações científicas, tecnológicas e sociais do nosso tempo”, sendo que “a Universidade de Évora pretende participar ativamente nesta transformação, promovendo uma abordagem interdisciplinar, responsável e centrada nas pessoas”.

“A cooperação com as universidades chinesas pode assumir aqui um papel muito relevante, através de projetos conjuntos de investigação, da formação avançada, da mobilidade académica e do desenvolvimento de novas aplicações da inteligência artificial em áreas tão diversas como o património cultural, a saúde, o ambiente, a agricultura e as humanidades digitais”, apontou António Candeias, afiançando que “acredito que a complementaridade das nossas competências científicas e a diversidade das nossas perspetivas culturais podem constituir uma importante mais-valia. E acredito igualmente que o Instituto Confúcio pode ajudar a criar as condições humanas e culturais necessárias para aprofundar estas relações”.

Uma ponte assente no respeito mútuo, na confiança e no conhecimento

A inauguração do Instituto Confúcio reforça também a dimensão cultural da cooperação entre Portugal e a China, cuja história conta com mais de 500 anos de contactos e intercâmbios. Neste percurso, Macau assume um lugar singular enquanto espaço de encontro entre as culturas portuguesa e chinesa, demonstrando como o diálogo intercultural pode promover o enriquecimento mútuo sem comprometer as identidades de cada povo.

“Aprender uma língua é muito mais do que adquirir uma nova competência de comunicação. É aprender a compreender outra cultura, outra história e outra forma de olhar para o mundo”, afirmou o Reitor, sublinhando a importância do conhecimento como instrumento para ultrapassar distâncias, combater preconceitos e construir relações de confiança.

O novo Instituto Confúcio pretende, assim, constituir uma oportunidade para estudantes, docentes, investigadores e para toda a comunidade alentejana “conhecerem melhor a língua, a cultura e a civilização chinesas”, sublinhou, desejando que o mesmo “seja uma verdadeira ponte, assente no respeito mútuo, na confiança, no conhecimento e na convicção de que temos muito a aprender uns com os outros”.

Na conclusão da sua intervenção, António Candeias estabeleceu um paralelismo entre as rotas marítimas que aproximaram Portugal e a China ao longo dos séculos e os novos caminhos da cooperação internacional. “Se no passado os oceanos foram os caminhos do encontro entre os nossos povos, hoje são as universidades que podem ajudar a abrir novos caminhos para o conhecimento e para a cooperação”, salientou, concluindo: “Podem contar com a nossa Universidade para continuar a aprofundar esta relação e para transformar as oportunidades que hoje se abrem em resultados concretos para os nossos estudantes, para a investigação e para as nossas comunidades”.

“Um novo marco na cooperação educativa entre a China e Portugal”

Já para QU Zhaowei, Diretor da Comissão de Assuntos Universitários e Secretário do Comité do Partido da Universidade de Língua e Cultura de Pequim, o Instituto Confúcio da Universidade de Évora representa “um novo marco na cooperação educativa entre a China e Portugal”. “É também uma importante iniciativa de intercâmbio cultural e humano, assim como a expressão concreta do esforço conjunto das três universidades na procura do bem comum e da aproximação dos povos”, sublinhou.

Por fim, WANG Yanjie, Conselheira para a Educação e Cultura, Embaixada da República Popular da China em Portugal, na sua intervenção destacou que a inauguração do Instituto Confúcio da Universidade de Évora representa a criação de um novo “elo de ligação entre Portugal e a China”. “A criação do Instituto Confúcio da Universidade de Évora abrirá uma nova porta para que a população em geral e os estudantes em particular possam conhecer melhor a China, aprender a língua chinesa e descobrir a cultura chinesa”, afiançou.

A cerimónia de inauguração, que decorreu na Sala dos Docentes do Colégio do Espírito Santo, contou com um momento musical a cargo da Escola de Artes da Universidade de Évora, com as intervenções institucionais, com uma apresentação cultural pelo Instituto Confúcio da Universidade de Lisboa e, por fim, com o descerramento da placa do Instituto Confúcio da Universidade de Évora.

LIU Jun, Presidente da Universidade da Cidade de Macau, e  ZHAO Lingshan, Vice-Presidente e Secretário-Geral da Fundação Chinesa para a Educação Internacional também deixaram palavras de felicitações através de vídeo mensagens.

Entre os principais objetivos do Instituto Confúcio da Universidade de Évora encontram-se a oferta de aulas de língua chinesa, a formação e capacitação de professores, a produção de materiais e recursos didáticos e a implementação de programas de intercâmbio linguístico e cultural. A nova estrutura pretende também promover exames e certificações na área da língua e cultura chinesas, desenvolver investigação e prestar serviços de consultoria em educação, cultura e outras temáticas relacionadas com a China.

O Instituto Confúcio da Universidade de Évora, cujos cursos de mandarim devem começar a ser ministrados no início do próximo ano, para alunos, docentes e comunidade em geral, vai funcionar na Casa Cordovil, no centro de Évora.

15.10.26

Futuro do Hidrogénio Renovável, no Alentejo

 

Alentejo testa o futuro do hidrogénio renovável

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Produção em Sines, utilização em edifícios de Évora, mobilidade no Alandroal e uma comunidade energética na Ilha de Culatra são algumas das aplicações concretas previstas pelo projeto H2tALENT, coordenado pela Universidade de Évora.


Mais do que produzir hidrogénio renovável, o projeto H2tALENT pretende demonstrar, em condições reais, como este combustível pode ser integrado em diferentes setores. Para isso, o projeto está ligado a vários locais de implementação que funcionarão como “laboratórios vivos” para demonstração, experimentação e formação.

No Alandroal, o projeto prevê apoiar a conversão de frotas municipais e de serviços públicos para sistemas movidos a hidrogénio. A mobilidade será assim uma das áreas em que a tecnologia será testada diretamente no território, incluindo a utilização de veículos movidos a hidrogénio.

Em Évora, o foco estará na utilização do hidrogénio no sistema de aquecimento edifícios. Entre as demonstrações previstas encontra-se a utilização de um misturador de hidrogénio e gás natural na piscina municipal, permitindo testar uma aplicação concreta do hidrogénio renovável no setor dos edifícios.

Já na Ilha de Culatra, o projeto terá uma vertente diferente, centrada no desenvolvimento de uma comunidade de energia renovável, com armazenamento de energia eléctrica na forma de hidrogénio e a sua integração com redes inteligentes. Desta forma, o sistema funcionará como uma “bateria de hidrogénio”, produzindo hidrogénio renovável com o excesso de energia eléctrica na altura de maior produção solar, armazenando esse hidrogénio para produzir novamente energia eléctrica na altura de maior demanda e menor produção solar.

Estas aplicações complementam a componente de produção prevista para Sines, onde está projetada uma unidade de produção de hidrogénio renovável de 15 megawatts. O hidrogénio renovável produzido poderá ser posteriormente injectado na rede de gás natural e/ou transportado para diferentes locais de utilização, permitindo testar uma cadeia que vai da produção ao transporte, armazenamento e consumo.

“Pretendemos ir desde a produção de hidrogénio renovável até ao transporte e à utilização, cobrindo toda a cadeia de valor”, explica Hugo Gonçalves Silva, professor do Departamento de Física da Universidade de Évora e coordenador do H2tALENT.

No conjunto, o projeto prevê a produção de mais de 500 toneladas de hidrogénio renovável por ano, destinadas a diferentes aplicações na indústria, mobilidade e edifícios.

Iniciado em 2024 e com duração prevista até 2030, o H2tALENT pretende criar um Vale do Hidrogénio no Alentejo, aproveitando infraestruturas existentes e novos investimentos para desenvolver e testar soluções ao longo de toda a cadeia de valor.

A dimensão internacional é outra das componentes do projeto. O consórcio reúne 29 parceiros de sete países, incluindo universidades, empresas, municípios, centros tecnológicos e entidades públicas, procurando transformar os resultados obtidos nos locais de demonstração em soluções que possam ser replicadas noutras regiões.

Através destes “laboratórios vivos”, o H2tALENT pretende, assim, passar da investigação e do planeamento para a demonstração de aplicações concretas, avaliando no terreno como o hidrogénio renovável pode ser integrado nos transportes, nos edifícios e nos sistemas energéticos locais.

13.10.26

11.10.26

Vamos armazenar CO2 ao largo da Figueira da Foz , já em 2032

 

Identificado local na costa portuguesa com capacidade estimada para armazenar pelo menos 93M de toneladas de CO₂

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Reservatório offshore a 22 quilómetros da Figueira da Foz, com capacidade de armazenamento superior a 93Mt, poderá acolher um projeto-piloto de armazenamento geológico. Roteiro prevê primeira injeção experimental em 2031–2032, dependendo de financiamento, autorizações e dos resultados das fases de caracterização.

Portugal identificou um local concreto no offshore nacional onde poderá ser testado o armazenamento geológico de dióxido de carbono (CO₂). O reservatório situa-se na Bacia Lusitaniana, a cerca de 22 quilómetros ao largo da Figueira da Foz, em formações rochosas centenas de metros abaixo do fundo marinho.

Os estudos desenvolvidos pela Universidade de Évora no âmbito do projeto PilotSTRATEGY, desenvolvido em colaboração com a GALP e o Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa, apontam para uma capacidade de referência de pelo menos 93 milhões de toneladas de CO₂ no local selecionado.

“Temos identificado e estudado um local concreto onde poderá ser realizado um projeto-piloto de armazenamento geológico de CO₂ em Portugal”, explica Júlio Carneiro, professor do Departamento de Geociências da Universidade de Évora, investigador do CREATE e responsável pelo projeto.

O CO₂ seria injetado a cerca de 1.200 metros abaixo do nível do mar, num reservatório de arenito, “uma rocha porosa com bastante permeabilidade”, ficando retido nos poros entre os grãos, atualmente preenchidos por água de elevada salinidade. O reservatório geológico é sobreposto por rochas de muito baixa permeabilidade, que impedem a migração do CO₂ para a superfície.

O objetivo imediato não é armazenar dezenas de milhões de toneladas, mas efetuar um projeto-piloto para testar o comportamento do reservatório no terreno. O roteiro estudado prevê uma campanha de prospeção sísmica 3D em 2027–2028, a perfuração de um poço de injeção em 2030 e uma injeção experimental durante cerca de 12 meses, em 2031–2032, seguida de monitorização pelo menos até 2034.

Este calendário está, contudo, dependente da disponibilidade de financiamento, das autorizações necessárias e dos resultados obtidos em cada etapa.

“A prioridade é efetuar uma campanha de prospeção sísmica 3D que permita conhecer melhor a continuidade das formações geológicas em profundidade e identificar eventuais falhas que possam constituir um risco de fuga do CO₂”, explica Júlio Carneiro.

O piloto deverá injetar menos de 100 mil toneladas de CO₂ e terá finalidade científica, não comercial. Deverá permitir confirmar experimentalmente a capacidade efetiva de injeção, acompanhar o comportamento do CO₂ no reservatório, avaliar a evolução da pressão e testar a capacidade de retenção das formações selantes.

CO₂ capturado na cimenteira de Souselas poderá ser transportado por comboio e navio

Uma das soluções estudadas permite testar toda a cadeia de transporte com uma infraestrutura permanente reduzida. O conceito prevê o recurso a CO₂ capturado na cimenteira de Souselas e o seu transporte por comboio em contentores criogénicos até ao porto da Figueira da Foz e, daí, por navio até ao local de armazenamento. O navio faria a ligação direta ao poço e permitiria a injeção do CO₂.

“Esta solução permite testar a cadeia com um mínimo de infraestrutura permanente, sem necessitar de uma plataforma offshore ou gasodutos”, explica Júlio Carneiro.

O custo estimado para o projeto-piloto é de cerca de 98 milhões de euros, num intervalo entre 90 e 120 milhões, não incluindo a unidade de captura de CO₂ na fábrica de Souselas.

Uma possível infraestrutura nacional de CO₂

Em paralelo, o projeto CTS (Carbon Transport and Storage) estudou diferentes possibilidades para criar uma futura infraestrutura nacional de transporte e armazenamento de CO₂, incluindo redes de gasodutos e soluções combinando gasodutos com transporte marítimo.

Os setores do cimento e da cal surgem entre os principais potenciais utilizadores. A tecnologia poderá também ter interesse para a indústria da pasta e papel, nomeadamente no caso do CO₂ de origem biogénica, cuja captura e armazenamento permanente poderá, em determinadas condições, ser considerado como remoção de CO2 da atmosfera.

Para Júlio Carneiro, o armazenamento geológico poderá ser uma opção para setores industriais onde outras alternativas de descarbonização não podem ser utilizadas para reduzir as emissões de CO2.

“Continuar a investigação sobre captura e armazenamento de CO₂ é essencial para sabermos em que condições esta tecnologia pode contribuir para esse objetivo e para manter em Portugal a atividade dos setores de difícil descarbonização”, afirma.

O investigador acrescenta que “existe legislação sobre armazenamento geológico de CO₂”, mas considera que a participação das entidades competentes num eventual piloto poderá ajudar a clarificar procedimentos e competências fundamentais para uma futura fase comercial.

Antes de qualquer eventual infraestrutura industrial de grande escala, será necessário confirmar no terreno os resultados obtidos através dos modelos geológicos e das simulações. O projeto-piloto será precisamente essa etapa: passar dos estudos e modelos para a demonstração experimental do armazenamento de CO₂ no subsolo marinho português.

“Portugal assumiu o objetivo de neutralidade climática em 2045 e há setores industriais para os quais as soluções disponíveis são limitadas. Continuar a investigação sobre captura e armazenamento de CO₂ é essencial para sabermos em que condições esta tecnologia pode contribuir para esse objetivo e para manter em Portugal a atividade dos setores de difícil descarbonização”, conclui Júlio Carneiro.