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19.2.18

O porquê da existência da Festa dos Tabuleiros

O texto que se segue, constante do site oficial do Município de Tomar - até dentro de dias ser de lá retirado pelos motivos óbvios deste meu escrito -, foi a intervenção da então Presidente da Câmara, a 12 de abril de 2014, aquando da reunião que esta convocou para o Salão Nobre do Município, para decisão sobre a realização da Festa dos Tabuleiros de 2015.

Como fui eu o seu autor exclusivo, fruto da minha experiência enquanto vereador da cultura no mandato anterior (2009-13), e também do conhecimento e da pesquisa que tive oportunidade de então realizar, entendo que ele deve ser dado de novo à estampa, neste momento em que nos preparamos para nova convocatória do povo.

Anseio pela marcação - e da escolha da data, bem como do discurso que a edil este ano proferirá, para aprender mais com o escriba que esta escolherá para o texto que, tal como há quatro anos, lerá..


[data: 12/4/2014; hora: 17H11; local: salão nobre do Município de Tomar; autor: luis ferreira; leitor: anabela freitas]




Estimados

Uma primeira saudação a todo o povo de Tomar que aqui quis estar hoje para, como manda a recente tradição com pouco mais de meio século, decidir da realização da Festa maior de Tomar, a nossa Festa dos Tabuleiros.

Uma segunda saudação para o senhor presidente da Assembleia Municipal, verdadeiro representante do povo, na sua múltipla expressão democrática e política e aos senhores vereadores, meus primeiros ajudantes na condução regular da autarquia.

A terceira, e simbolicamente última saudação, para os senhores provedor da Misericórdia de Tomar e pároco de Tomar, que sendo os guardiões dos símbolos maiores da Festa – o Espírito Santo, ao qual ela terá sido consagrada e as coroas, verdadeiro poder do povo, guardadas durante séculos pela nossa Misericórdia.



Cidadãos

Começámos esta nossa cerimónia a meio da tarde, desta tarde que começou com o Sol no seu zénite e que antes do seu ocaso, já para lá depois das oito da noite, porque seria a meio da tarde que todas as cerimónias ancestrais começavam.
E sendo a nossa Festa dos Tabuleiros uma cerimónia única, própria de uma terra que se respeita e invoca, de quatro em quatro anos, a sua maior paz e unidade, não podia deixar de simbolicamente invocar a cultura ancestral.

Consagrada ao Espírito Santo, na natural ligação cultural à religiosidade própria das nossas gentes, não deixa de ter a sua ligação ancestral, provavelmente para muito antes da romanização, onde o culto a Nabia, deusa da água venerada na galécia – noroeste peninsular a norte do Douro e Lusitânia, a sul deste Rio e até ao Guadiana, e a que deu origem ao nome do nosso Rio.

Já há mais de vinte e cinco séculos, os de antanho sabiam ser a água uma riqueza e o seu conhecimento da época levava-os a divinizar os elementos. Sem água, não há alimento e sem alimento não há vida. E o alimento mais importante para as civilizações depois da sedentarização, eram os cereais.
Daí surge naturalmente que a ligação da Festa dos Tabuleiros à deusa romana de Ceres, na mitologia romana, era mulher de Júpiter e mãe de Prosérpina.

Ceres era, para os romanos, a deusa das plantas que brotam (particularmente dos grãos), dos cereais portanto e também do amor maternal. Diz-se que foi adotada pelos romanos em 496 a.C. durante uma fome devastadora.


A deusa era personificada e celebrada por mulheres em rituais. O seu primeiro festival era a Cereália ("jogos de Ceres"), instituídos no século III a.C. e celebrados anualmente de 12 de abril a 19 de abril.
Eis a razão porque estamos também hoje aqui, para decidir se fazemos a Festa de 2015 e a meio da tarde.


A veneração de Ceres ficou associada às classes plebeias, que dominavam o comércio de cereais. Ela tinha doze deuses menores que a assistiam, e estavam encarregues de aspetos específicos da lavoura.

Ceres era retratada na arte com um cetro, um cesto de flores e frutos e tinha uma coroa feita de espigas de trigo. Todos sabemos que a palavra cereal deriva de Ceres.




Tomarenses
Falar da Festa dos Tabuleiros hoje, no dia em que ancestralmente se iniciavam as ceriálias do tempo dos Romanos, é lembrarmos-nos de ensinamentos e lendas antigas.

Os jogos de Ceres (ludi cereales), consistiam na busca por Prosérpina, sua filha e eram representados por mulheres de branco, tal como na nossa Festa dos Tabuleiros. O festival celebrava a chegada da primavera e o fim do inverno. O período do inverno simbolizaria a parte do ano em que a deusa Prosérpina passava com o marido, Plutão, o qual a havia raptado para com ela casar.

Apesar de toda a evolução, temos hoje cada vez mais dúvidas se um qualquer dos ancestrais deuses dos gregos ou dos romanos, não terá raptado a primavera ou o verão, tais são os extremos climatéricos a que vimos assistindo nas últimas décadas. Mas o nosso saber de hoje permite-nos relativizar e revisitar a interpretação literal, que os povos antigos a tudo davam: aos elementos base, aos alimentos, à projeção teísta qualquer que ele fora ou seja. No entanto devemos saber e respeitar toda a nossa cultura e dela tirar alimento para a alma coletiva.

Naturalmente que a nossa Festa dos Tabuleiros, realizada com regularidade durante séculos, umas vezes todos os anos, como o foi no século XIX, ou com uma regularidade mais espaçada, de 3, 4 ou mais anos, consoante os dinheiros, as guerras e as vontades do século XX.

Nela persistem os símbolos que a história nos legou: a cruz de cristo ou a pomba do espírito santo, que encima o Tabuleiro, ele próprio um símbolo de evolução complexa e de origem difícil de estabelecer, mas onde as Festas Canefórias (de origem grega), onde as mulheres levavam à cabeça açafates com objetos para os sacrifícios e oferenda aos deuses.

Hoje, no início da sétima semana após a comemoração que fizemos do
nosso dia da Cidade
, neste mesmo Salão Nobre, do Palácio de El Rey, que em Tomar é dizer de D.Manuel “O venturoso”, o povo de Tomar tem uma decisão a tomar.


A decisão é simples: devemos ou não realizar a Festa dos Tabuleiros no ano de 2015?
Se o decidirmos, dentro de 51 semanas estaremos a realizar a primeira saída das coroas, no Domingo da Páscoa, no dia 5 de Abril de 2015.



Cidadãos

Mas, e que novos desafios se colocam para a proposta Festa de 2015?

Desde logo o desafio da legalidade, onde pela primeira vez a Câmara se compromete a cumprir as limitações legais de utilização do espaço público, num relacionamento transparente, baseado num regulamento que estando a ser preparado e que será presente à Assembleia Municipal para aprovação, permitirá à futura comissão central, trabalhar num relacionamento legal e profícuo, para melhorar a sustentabilidade financeira da Festa.

Desde logo o desafio da responsabilidade, onde a Câmara se compromete a estar presente e participante em todas as grandes decisões que lhe competirem, na defesa do interesse público geral, nomeadamente no que à transparência e relação financeira diz respeito.

Outro desafio que estará este ano presente será o desafio da sustentabilidade, seja a financeira, a ambiental e a social, onde as parcerias com outras entidades, que serão facilitadas e protegidas, onde serão impulsionados os sistemas de voluntariado ativo, onde serão criadas as condições para a rentabilização e melhoria do acesso geral a locais específicos, para que os forasteiros e turistas que nos visitam, possam assistir em melhores condições ao dia grande da Festa.

Queremos uma Festa de todos, para todos, onde o espírito ecuménico seja de facto vivido pelas nossas famílias, no respeito pelos valores que cada um professa, mas promovendo a unidade e a consagração do desejo da perpetuação desta memória para os vindouros.

A Festa que se virá a realizar, será mais do que um ponto de chegada, mas sim um ponto de partida para esta mais difícil fase da nossa vida coletiva. Uma vida baseada numa nova visão, que conciliará a melhor das nossas melhores tradições, com a ligação às outras tradições desempenhadas pelas Festas do Espírito Santo, como sejam quer as das ilhas açorianas ou do Brasil, para onde os Tomarenses levaram os seus ritos, a sua cultura.

Nesse sentido estamos já a trabalhar para fazer o caminho necessário ao reconhecimento em menos de uma década da Festa dos Tabuleiros / Festas do Espírito Santo, como património imaterial da Humanidade.

Foi aliás nesse sentido que já iniciámos no último mês, trabalho conjunto com a Secretaria de Estado da Cultura e com outros Municípios, para darmos este importante passo para a valorização da nossa Festa.

A deusa Prosérpina, filha de Ceres, terá ficado refém do seu marido, segundo a lenda romana, mas o nosso desejo de ver reconhecido o esforço de inúmeras gerações de Tomarenses, o respeito pela nossa cultura e tradição não poderá ficar preso por qualquer medo ou falta de coragem de dar os passos necessários a fazer entrar a Festa dos Tabuleiros na verdade do séc. XXI. Tradição, história, cultura e modernidade, são pilares passiveis de se apoiarem de forma perene e
determinante.


Estimados

Saberemos manter os símbolos que herdámos: o pão que ofertantes as mulheres levam à cabeça, a pesa e o bodo aos pobres que no final da festa é distribuído, mas que terá origens mais fortes e devassas, que terão levado, El Rey que em Tomar é sempre D.Manuel, como já dissemos, a proibir os chamados Bodos do Espírito Santo, que se realizariam desde tempos da Rainha Santa, mas que teriam objetivamente origem mais remota.

Saberemos preservar a cultura de partilha e de paz entre os vizinhos, no ornamento de cada vez mais ruas, na promoção do desejo maior de, sem intermediários, alcançarmos os nirvanas que cada um persegue na sua fé, no seu crer.

Por isso e para isso, vos convoquei hoje para aqui.

Digam por isso de vossa justiça:
DESEJA O POVO DE TOMAR REALIZAR A SUA FESTA DOS TABULEIROS NO ANO DA GRAÇA DE DEUS DE 2015?

(----- ) [Um sim em ovação] (--- palmas ---)


Obrigado a Todos pela unânime votação. Assim será feito!

HÁ NA SALA ALGUÉM QUE QUEIRA SER MORDOMO OU ALGUÈM PROPÕE ALGUM CIDADÃO PARA SER O MORDOMO DA FESTA AGORA APROVADA DE SE REALIZAR EM 2015?

(----- ) [Um sim em ovação] (--- palmas ---)
(--- intervenção do mordomo eleito ---)