Alqueva gerou riqueza, mas o Alentejo continua desigual e a perder população
Estudo da Universidade de Évora e do Instituto Superior Técnico identifica um paradoxo no empreendimento de Alqueva: apesar da modernização agrícola, do crescimento das exportações e do impulso ao turismo, persistem problemas de envelhecimento demográfico, precariedade laboral, concentração da propriedade e pressão ambiental.
O Alqueva transformou a agricultura e a economia do Alentejo, mas não conseguiu resolver todos os problemas que justificaram a criação do empreendimento. A população continua a diminuir, o envelhecimento mantém-se elevado e uma parte significativa da riqueza gerada não permanece na região. Estas são algumas das conclusões de um estudo de Carlos Gonçalves, da Universidade de Évora, e Jorge Gonçalves, do Instituto Superior Técnico da Universidade de Lisboa, publicado em 2026 na revista científica Sustainability.
“O Empreendimento de Fins Múltiplos de Alqueva foi criado com uma grande ambição: ajudar a desenvolver o sul de Portugal. Prometia modernizar a agricultura, fixar população, criar emprego e reduzir desigualdades entre territórios”, recorda Carlos Gonçalves, investigador do Centro Interdisciplinar de Ciências Sociais da Universidade de Évora (CICS.NOVA.UÉvora).
O artigo, intitulado Promises and Deliveries in the Alqueva Paradox: Neoextractivism and the Limits of Territorial Cohesion Policy in Southern Portugal, analisa até que ponto essas promessas se concretizaram. Para esse efeito, os investigadores recorreram à análise documental, a dados dos censos, a indicadores económicos e sociais e ao estudo dos impactos do projeto no território.
Os resultados revelam uma realidade contraditória. Alqueva aumentou a área de regadio, melhorou a segurança no abastecimento de água, impulsionou as exportações agrícolas, contribuiu para a produção de energia renovável e deu nova visibilidade turística à região.
Contudo, os ganhos económicos e produtivos não foram acompanhados de uma transformação equivalente das condições sociais e demográfica e muitos dos problemas que o projeto prometia resolver continuam presentes. “A população continua a diminuir, o envelhecimento mantém-se elevado, muitos trabalhadores agrícolas migrantes vivem em situações precárias, a terra está cada vez mais concentrada em grandes explorações, grande parte da riqueza gerada não fica na região e as pressões sobre o ambiente têm aumentado”, destaca Carlos Gonçalves.
Para o investigador, esta contradição evidencia os limites de uma estratégia de desenvolvimento centrada na construção de grandes infraestruturas, visto que “uma grande obra pública pode ser tecnicamente bem-sucedida e, ainda assim, não garantir um desenvolvimento justo e equilibrado para o território. No caso de Alqueva, os benefícios foram importantes, mas não chegaram de forma suficiente às populações locais”.
A investigação não se limita a avaliar os resultados económicos do empreendimento: analisa também a forma como os benefícios da transformação agrícola são distribuídos e em que medida a riqueza produzida permanece no território.
A expansão do regadio e a modernização da agricultura podem aumentar a produtividade e reforçar a capacidade exportadora, mas não garantem, por si só, que os ganhos se traduzam em melhores condições de vida para as populações. A concentração da propriedade, o peso dos grandes investidores e a precariedade laboral levantam questões sobre a distribuição das oportunidades e dos benefícios gerados.
“O problema não está apenas na infraestrutura em si. Está também na forma como o desenvolvimento foi organizado”, alerta Carlos Gonçalves.
Na perspetiva deste especialista em planeamento regional e urbano, são necessários melhores mecanismos de redistribuição da riqueza, maior coordenação entre instituições, mais participação local e políticas que assegurem que uma parcela mais significativa do valor criado permanece na região. Sem estas condições, os benefícios podem concentrar-se sobretudo nos grandes investidores e em interesses externos.
É neste contexto que os investigadores recorrem ao conceito de neoextrativismo, presente no título do artigo recentemente publicado. O conceito permite analisar modelos de desenvolvimento assentes na exploração intensiva de recursos, nos quais a riqueza produzida pode não beneficiar proporcionalmente as comunidades e os territórios onde essa atividade ocorre.
As conclusões do estudo ultrapassam o caso do Alentejo e colocam questões relevantes para as políticas de desenvolvimento regional em Portugal e na Europa. As grandes obras públicas podem criar condições para a transformação económica, mas o seu sucesso não deve ser avaliado apenas pelo investimento realizado, pela capacidade instalada ou pelo crescimento da produção.
“O caso de Alqueva deixa, por isso, uma lição importante para Portugal e para a Europa, porque construir grandes infraestruturas não chega. Para que haja um verdadeiro desenvolvimento regional, é preciso garantir que os projetos melhoram efetivamente a vida das pessoas que vivem nesses territórios”, defendem os investigadores do estudo.
No estudo considera-se que o desenvolvimento territorial exige uma abordagem que vá além dos resultados económicos e produtivos: “Alqueva trouxe água, agricultura modernizada, energia e turismo. Mas o desenvolvimento territorial exige mais do que isso. Exige emprego digno, serviços públicos, equilíbrio ambiental, justiça social, participação das comunidades e uma distribuição mais justa dos benefícios gerados.”
Mais do que questionar a importância de Alqueva, o estudo propõe uma reflexão sobre o modelo de desenvolvimento construído em torno do empreendimento. O desafio consiste em garantir que a modernização económica se traduz também em coesão social, sustentabilidade ambiental e melhores perspetivas de vida para quem habita o território.Parte superior do formulário