Universidade de Évora lança «A Fronteira da Cultura», que cria um corredor cultural entre o Alentejo e a Extremadura
A Universidade de Évora promoveu, no dia 19 de outubro, a sessão pública de lançamento da iniciativa “A Fronteira da Cultura”, que contou com a assinatura da Declaração de Évora, que materializa um corredor cultural transfronteiriço entre o Alentejo e a Extremadura, entre Portugal e Espanha.
A iniciativa, que pretende afirmar o território transfronteiriço como um espaço de criação cultural e de cooperação ibérica, na prática irá promover a partilha de recursos culturais e facilitar a circulação de músicos, exposições, peças de teatro e cinema entre as duas regiões, criando oportunidades de colaboração e aproximando instituições, agentes culturais e públicos de ambos os lados da fronteira.
A sessão de lançamento da iniciativa contou com intervenções de António Candeias, Reitor da Universidade de Évora, de Antonio Sáez Delgado, Vice-Reitor para a Cultura e Sociedade da Universidade de Évora, e de Representantes das entidades parceiras, nomeadamente, de Ricardo Pinheiro, presidente da CCDRA – Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Alentejo, de José Luís Gil Soto, Secretario General de Cultura da Junta de Extremadura e de Rafael Mateos, Alcalde do Ayuntamiento de Cáceres.
“Um espaço de proximidade humana e cultural”
Na vídeo mensagem dirigida aos participantes, dado estar na China integrado na Comitiva do Ministro da Educação em visita àquele país, o Reitor da Universidade de Évora, António Candeias, destacou o potencial histórico e cultural deste território e as oportunidades que oferece para o desenvolvimento de novas formas de colaboração. Entre Évora, Estremoz, Elvas, Badajoz, Mérida e Cáceres, existe, nas palavras do Reitor, “um espaço de proximidade humana e cultural” que reúne condições únicas para “desenvolver novas formas de cooperação”.
António Candeias salientou que a iniciativa pretende afirmar esta região transfronteiriça como um “espaço cultural partilhado, capaz de afirmar uma identidade própria, atrair criadores e estimular novas dinâmicas artísticas e culturais”. O objetivo passa também por conquistar “uma posição diferenciada no panorama cultural ibérico e europeu”, acrescentou.
“A cultura tem uma capacidade extraordinária para aproximar pessoas, criar oportunidades e transformar os lugares onde vivemos”, sublinhou António Candeias, defendendo que o trabalho conjunto “poderá transformar este corredor cultural num território de referência, reconhecido pela vitalidade da sua criação e pela capacidade de estabelecer pontes entre comunidades, instituições e países”.
O Reitor destacou ainda que a força do projeto dependerá da diversidade dos parceiros envolvidos, da partilha de recursos e experiências e da confiança mútua, essenciais para transformar ideias comuns em realizações concretas.
A participação da Universidade de Évora reflete, segundo o Reitor, o compromisso da instituição com a valorização cultural do Alentejo e o desenvolvimento regional, através de uma ligação ativa à sociedade e da construção de parcerias que ultrapassam fronteiras geográficas e institucionais. “A Universidade de Évora assume este compromisso com entusiasmo e com um profundo sentido de responsabilidade”, afirmou António Candeias, reiterando a visão de uma Universidade aberta à sociedade e capaz de contribuir para um futuro “mais criativo, mais inclusivo e mais aberto ao mundo”.
“Estamos a iniciar um caminho que queremos longo e fecundo”, concluiu o Reitor, apelando à construção de um projeto comum capaz de afirmar o potencial cultural deste território transfronteiriço.
Uma fronteira marcada pela Cultura
Já Antonio Sáez Delgado, Vice-Reitor para a Cultura e Sociedade da Universidade de Évora, a iniciativa representa a construção de “uma espécie de aliança estratégica” entre entidades culturais das duas regiões, assente na disponibilização e partilha de recursos. A ambição é afirmar a fronteira luso-espanhola como um território reconhecido pela qualidade e diversidade da sua produção cultural.
“Temos uma grande capacidade para criar cultura e para produzir cultura de qualidade”, sublinhou o Vice-Reitor em declarações aos jornalistas, defendendo a necessidade de valorizar esta identidade cultural e de reforçar o reconhecimento do território no contexto ibérico.
“Ganhamos a possibilidade de transformar a cultura num espaço de conhecimento do outro, que é diferente de nós”, afirmou o responsável, destacando a importância da cultura enquanto instrumento de aproximação entre pessoas e territórios.
Para Antonio Sáez Delgado, a iniciativa procura também “contrariar a perceção destas regiões como espaços periféricos”, afirmando-as como territórios com capacidade para assumir um papel de destaque no ecossistema cultural ibérico. O nome “A Fronteira da Cultura” traduz essa intenção. Apesar de reconhecer que “a cultura não tem fronteiras”, a designação pretende, segundo o responsável, “afirmar a fronteira entre o Alentejo e a Extremadura como uma marca de identidade cultural, à semelhança de outras regiões transfronteiriças reconhecidas pelas suas dinâmicas económicas ou turísticas”.
Por seu turno, Ricardo Pinheiro salientou o “espírito de cooperação” que está presente na iniciativa, desejando que “a cooperação se materialize neste projeto em que cada entidade é mais um parceiro que está à disposição", como é o caso da CCDR-Alentejo. Que cada vez mais consigamos dar estes passos de proximidade e melhoria pelo bem comum”.
José Luis Gil Soto, Secretario General de Cultura da Junta de Extremadura, sublinhou que “a fronteira entre Espanha e Portugal através da cultura pode ser redesenhada”, desejando que “depois deste acto, consigamos fazer a ponte e que a cultura nos una em tudo o que for necessário, sendo também um motor de desenvolvimento”.
Por fim, Rafael Mateos, Alcalde Ayuntamiento de Cáceres, destacou a importância da iniciativa que une os dois lados da Fronteira, que considerou que irá “marcar um antes e um depois para ambos os lados da fronteira”, desejando que em breve Cáceres possa ser escolhida para ser a Capital Europeia da Cultura em 2031, seguindo as pegadas de Évora 2027, porque “acreditamos na importância que a cultura tem para construir todo um território”.
Uma comunidade cultural aberta à participação
“A Fronteira da Cultura” envolve mais de duas dezenas instituições e agentes culturais que assumem conjuntamente o compromisso de criar novas pontes entre territórios, entre artistas, investigadores e comunidades, estimulando projetos comuns.
Contudo, como referiu aos jornalistas Antonio Sáez Delgado, “A Fronteira da Cultura pretende crescer e acolher novos participantes. O projeto está aberto a associações, municípios, instituições e companhias artísticas que queiram contribuir para a dinamização cultural do Alentejo e da Extremadura”.
“A ideia é que esteja sempre em aberto, criar uma comunidade cultural em aberto”, explicou o responsável, acrescentando que a participação não se limita às entidades fundadoras. Companhias de teatro, dança e outras estruturas artísticas poderão também integrar esta rede, através das organizações participantes.
As Instituições que integram desde já “A Fronteira da Cultura” são: Universidade de Évora; Câmara Municipal de Évora; CCDRA – Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Alentejo; Fundação Eugénio de Almeida; MEIAC – Museo Extremeño e Iberoamericano de Arte Contemporáneo; Évora 2027; INATEL; Universidad de Extremadura; Museo Helga de Alvear; Ayuntamiento de Cáceres; Diputación de Cáceres; Museo Vostell Malpartida; Ayuntamiento de Mérida; Orquesta de Extremadura; Diputación de Badajoz; Junta de Extremadura; Ayuntamiento de Badajoz; Festival Ibérico de Cine; Fundación Ortega Muñoz; MACE - Museu de Arte Contemporânea de Elvas; Câmara Municipal de Elvas; ARTMOZ; e Câmara Municipal de Estremoz.
Na Declaração de Évora, assinada pelas instituições fundadoras, destaca-se a riqueza do património cultural, histórico e criativo deste território, que reúne universidades, museus, teatros, centros de arte, arquivos, fundações, festivais e outras instituições com uma intensa atividade cultural. A articulação entre estas entidades poderá contribuir para ultrapassar a tradicional lógica de fronteira e afirmar uma nova centralidade cultural entre Portugal e Espanha.
Com a assinatura da Declaração, as instituições subscritoras manifestam a vontade de integrar uma comunidade aberta de cooperação, promovendo o conhecimento mútuo, o contacto regular e a partilha de informação, iniciativas, criadores, investigadores e públicos. O compromisso prevê ainda a identificação de recursos, experiências, espaços e projetos que possam ser partilhados, bem como a exploração de oportunidades de colaboração que reforcem a projeção nacional e internacional deste corredor transfronteiriço.
A Universidade de Évora assume um papel ativo neste processo, disponibilizando-se para assegurar a gestão dos procedimentos associados à iniciativa.
A entrada em funcionamento do projeto está prevista para o primeiro trimestre de 2027, após a criação da plataforma digital e do banco de recursos culturais.
A primeira fase deverá centrar-se na cultura contemporânea, estando prevista uma duração inicial de aproximadamente dois anos. Numa fase posterior, a cooperação poderá alargar-se ao património, através da partilha de estruturas e recursos, e, numa terceira etapa, ao turismo, com a preparação de propostas turísticas que valorizem a oferta cultural do território transfronteiriço.