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1.1.25

Novo perfil académico (Academia e ORCID)

Na sequência dum conjunto vasto de formações realizadas nos últimos anos, decidi incluir neste repositório histórico de pensamentos e interesses - já com duas décadas de "uso" os links para o meu perfil académico.

Aí poderão, com outro nível de detalhe, ser lidos artigos, trabalhos e outras publicações, as quais permitem também - à sua maneira, transmitir pensamentos, conhecimento e, quando e se disso for caso, alguma ciência.

O link é este: Academia.edu

Ou então este: ORCID.org


4.6.21

A corrupção - segundo um Homem de valores (António Arnault)

 António Arnault, em entrevista na Revista "Expresso" de 30/11/2013

"Hoje á polícias e juízes corruptos, uma coisa ininmaginável no meu tempo. O País está cheio de Condes de Abranhos e de Alves dos Reis. A corrupção, como o amor ou o ódio, é tão antiga como a Humanidade. Quando alguém vive acima das suas posses, o Estado deve averiguar, o que já acontecia 400 ou 500 anos antes de Cristo, na Roma de Sólon.

Aqui não quiseram inverter o ónus da prova, mas era fácil fazer uma redação sem inverter o ónus da prova. Em Direito há presunções. Aqui a lei não passa porque os que votam a leisão cúmplices da corrupção."

22.12.20

A régua - uma leitura maçónica


Dos caminhos de ensinamento Maçónico, podemos esclarecer, que:

O primeiro pensamento foi o que se poderia dizer sobre este instrumento para além da sua simbologia que pode ser consultada em qualquer referência da Maçonaria.

Assim, por um lado a régua é usualmente um instrumento com uma escala que serve para traçar retas e fazer medições. Claro que na escola a régua tinha, e porventura terá, outros usos em épocas ou lugares em que a disciplina dos alunos era e é mantida de outras formas como Mark Twain descreve sempre que a personagem principal da sua obra “Tom Sawyer” era apanhado pelo professor em comportamentos não condignos de uma sala de aula.


I.

Na maçonaria utiliza-se a régua de 24 polegadas, que representam as 24 horas do dia e que dividida em espaços iguais remete aos períodos de trabalho, de repouso, de exercícios físicos e mentais e de lazer, ou seja, nenhuma parte do dia deve ser desperdiçado ou devotado ao ócio.

Desta forma a régua, que deriva da palavra francês règle, que também significa regra, indica-nos desde logo como gerir o nosso percurso de aprendizagem e de aperfeiçoamento, ou sejam este deve ser equilibrado entre as diversas componentes da vida, mas rigoroso sem espaço ao desperdício do nosso tempo que é por natureza limitado.


II.

Por conseguinte é na intersecção entre o nosso tempo de vida e a forma como a régua o reparte e a régua como instrumento de desenho de retas que por natureza são infinitas que penso que são as lições que devemos retirar.

Por um lado, tal como a reta infinita desenhada pela régua, o nosso caminho de aprendizagem e aperfeiçoamento não tem nem princípio nem fim. 

Não tendo princípio, o nosso aperfeiçoamento como pessoas deve alicerçar-se no que os irmãos mais experientes e nos que já não se encontram entre nós aprenderam, e, não tendo fim, manter sempre uma atitude de aperfeiçoamento constante mesmo sabendo que nunca o atingiremos, tal como a régua que não permite desenhar a reta no seu todo mas apenas uma representação da mesma. 

Mas isso, não significa que o nosso aperfeiçoamento deva ser apenas uma representação do nosso ideal, tal como a régua que pode passar de mão em mão para prolongar a reta o que aprendemos não deverá ser mantido para o próprio, mas deverá se partilhado para que o aperfeiçoamento do homem e da sociedade seja, tal como a reta, um todo contínuo sem pausas nem quebras e executado de forma perseverante.

A segunda lição está na perseverança da aprendizagem e como deve ser feita. 

A régua, ao ter uma escala definida, impõe uma ordem e uma regra bem definida. 

O caminho do aperfeiçoamento, tal como a régua, também deverá ser feito de uma forma bem delineada e organizada e não de forma anárquica. 

Esta necessidade prende-se com o imperativo de não esquecer nenhum detalhe por mínimo que pareça, pois nunca saberemos quando esse detalhe poderá ser importante. 

Se o caminho for anárquico a construção do nosso conhecimento deixará de se parecer com uma reta, contínuo e uno, mas um salpicado de pontos e traços.

Em conclusão, deverei olhar para a régua, não com o temor com que era vista nas escolas de outrora, mas como um instrumento que me ajudará a indicar o caminho no traçado de uma vida retilínea, livre, justa e fraterna. 

Um caminho que não poderei traçar a sós mas, tal como a régua que pode ser partilhada, será traçado em conjunto com todos vós.

18.12.20

O positivismo - Augusto Comte

"Tudo é relativo, eis o único princípio absoluto"


O Paradigma Positivista teve como mentor Augusto Comte, que se debateu pelas suas ideias positivistas, e distingue-se pelas seguintes características:

Pressupostos básicos:

• Conhecimentos baseados na observação;

• O papel da teoria é crucial;

• Tem uma base epistemológica objetivista;

• O investigador tem que ser capaz de observar objetivamente – realidade objetiva;

• Expressa por regularidades estatísticas observáveis;

• Defende as noções científicas de explicação, previsão e controlo;

• Realidade única independentemente de quem a estuda;

• Pouca relevância nos aspetos subjetivos dos indivíduos.





20.8.20

Morreu Mário Duarte, Padre e Tomar não perdeu nada!

Paz à sua alma.

P.S. - Agora que faleceu, não faltarão loas ao dito, quiçá arvorado em semi-Deus, como é típico de todos os deísmos. 
Acontece que era um "malandro". Um bom "malandro". 
Tomar não perdeu nada. A sua família sim. 
E a ela as minhas sentidas condolências.

Fim da história! :)


Notícia, "Cidade de Tomar"

Internado desde o dia 15 de julho no Hospital de Abrantes, o padre Mário Duarte faleceu esta noite. Nascido em 3 de maio de 1960, Mário Duarte Farinha não resistiu a uma pancreatite.

Post Scriptum

Recordando uma das frases mais queridas dos Mestres Anarquistas do Séc.XIX, quando a luta era - efetivamente, pela libertação que a tirania das religiões, aliadas ao poder autocrático dominante, exercia sobre o povo e, especialmente, procurando limitar a atuação dos Livre Pensadores:

“o homem só será livre quando o último rei for enforcado nas tripas do último padre”. 

Jean Meslier (1664-1729)

26.2.20

O que é, afinal, a Maçonaria?

Por JOSÉ CASTELLANI (1937-2004) - Médico, escritor, jornalista e historiador brasileiro


In Introdução, do Livro "A ação secreta da Maçonaria na política mundial" 


A definição mais aceita e mais divulgada da Maçonaria é a seguinte: “Instituição educativa, filantrópica e filosófica que tem por objetivo os aperfeiçoamentos morais, sociais e intelectuais do Homem por meio do culto inflexível do Dever, da prática desinteressada da Beneficência e da investigação constante da Verdade”. 

Sem prejuízo, todavia de suas finalidades educativas e filantrópicas ela é na realidade uma Instituição essencialmente política, atuando dentro de padrões éticos, consubstanciados na própria essência sociológica da política, no sentido da manutenção das grandes conquistas sociais da Humanidade e da defesa do Liberalismo e das ideias libertárias. 

As grandes transformações sociais ocorridas no mundo desde o século XVI e que contaram com a participação subterrânea da Maçonaria, em maior ou menor escala, demonstram as finalidades políticas que determinaram o nascimento e o seu crescimento, embora certos agrupamentos maçónicos, negando à política um lugar de destaque na evolução social dos povos, rejeitem qualquer escopo político nas atividades da Instituição.

Essa rejeição, além de arcaica e anacrónica, desconhece o progresso racional e nega o espírito crítico do Homem. A Política, como ramo das Ciências Sociais que estuda as diversas formas de organização do poder político, bem como sua dinâmica, suas instituições e seus objetivos mostram estreita relação e fortes vínculos com outros ramos da ciência, como a História, a Sociologia, a Filosofia e a Economia; desta maneira, nenhum homem esclarecido pode mostrar indiferença em relação à atividade política e, com maior razão, nenhum agrupamento de elite intelectual pode pretender desconhecer e rejeitar a Política. 

Existem estatutos de Obediências maçónicas (conglomerado de Lojas que formam um Grande Oriente ou uma Grande Loja) que, por timidez, ou por falta de espírito cívico, postergam a liberdade de pensamento do Homem, proibindo aos Maçons, qualquer discussão sobre assuntos políticos e religiosos, o que é quase um contrassenso, considerando-se que todas as Constituições que regem a vida dos povos livres, consideram a liberdade de pensamento e de expressão como um direito inalienável do cidadão. 

Felizmente, essa proibição, totalmente injustificada, numa entidade que se diz progressista e de alto espírito cívico, não impediu que homens de valor, sob a discrição dos templos maçónicos, ajudassem a modificar a face do mundo, contribuindo com sua atividade política para a evolução racional e social da espécie humana. Essa timidez estatutária, entretanto, aliada ao hábito de querer manter secreta uma Instituição que hoje é apenas discreta, faz com que o grande público ignore o trabalho maçónico e a participação da Maçonaria nos acontecimentos mundiais, fazendo, também, com que se arme um espírito de prevenção à Instituição, oriundo do desconhecimento da realidade dos fatos. Somente, esporadicamente e, apenas, para mostrar mazelas e defeitos, que na realidade, existem em qualquer Instituição, é que a Maçonaria chega às manchetes dos jornais.

Foi o que aconteceu em maio de 1981, com o rumoroso caso da Loja maçónica “P-2” (Propaganda Due) de Roma, que chegou a provocar violenta crise no governo italiano; esta Loja, embora oficialmente pertencente ao Grande Oriente de Itália, estava marginalizada perante a Maçonaria italiana, já tendo sido suspensa em duas oportunidades, por sua anti-ética atividade política, baseada na organização de planos golpistas que envolviam altas personalidades da sociedade italiana.

O reverso da medalha, ou seja, as atividades políticas não deletérias, mas sim benéficas, dentro do contexto social, não têm sido abordadas, nem divulgadas, de maneira geral...

*** *** ***
Mais, sobre a presença da Maçonaria, ao Vale de Tomar...

A Loja Templários, da Maçonaria Portuguesa.

18.1.20

O Mito da Meritocracia... (a visão de João Júlio Cerqueira)

Com a devida vénia ao Dr. João Júlio Cerqueira, e ao seu projeto scimed.pt

*** *** ***


O termo “meritocracia” foi criado por Michael Young, quando escreveu o romance satírico em 1958, “The Rise of Meritocracy”. No livro, Young descrevia um tipo de auto-ilusão em que as pessoas ricas se convenciam que a sua riqueza era evidência da sua superioridade moral. A piada é que a sátira virou dogma. Hoje vivemos da meritocracia. Onde nos convenceram que aquilo que alcançamos depende apenas da nosso trabalho árduo e perseverança. Se não consegues, a culpa é tua. Não te esforçaste o suficiente.
Não só isso, como se criou outra piada interessante. A ideia da meritocracia começou por ser uma ideia anti-aristrocrática já que, cada um de nós, independentemente das nossas origens, poderia ser rico, famoso e bem sucedido dependendo apenas do nosso mérito. No entanto, esta atitude/ideologia transformou-se num modelo de perpetuação de uma nova aristrocacia, já que um dos maiores fatores para ser bem sucedido na vida é ser filho de pessoas bem sucedidasMesmo que tenham más notas na escola.
E ser filho de pessoas bem sucedidas influencia o nosso futuro sucesso de duas formas. Os genes que herdamos e o ambiente familiar e sócio-económico em que somos criados.  Dado que ninguém escolhe o seu próprio genoma, não estou a ver onde está o mérito disso. E como ninguém escolhe a família onde nasce – se rica se pobre, com bom ou mau aporte nutricional, se bem conectada em termos sociais ou nem por isso, se numa família estruturada ou não – também não me parece que seja possível atribuir o nosso mérito a essas ocorrências.
Aliás, uma das passagens do Behave, do Salpolsky, que mais me impressionou, foi esta:
“A conexão entre a adversidade infantil e a maturação frontocortical é visível quando se estuda a pobreza infantil. O trabalho de Martha Farah, da Universidade da Pensilvânia, Tom Boyce, da UCSF, e outros demonstra algo ultrajante: aos cinco anos, quanto menor o estatuto socioeconómico de uma criança, em média, (a) maiores os níveis basais de glicocorticóides e/ou mais reativa a resposta ao stresse glicocorticóide, (b) mais fino é o córtex frontal e menor o seu metabolismo, e (c) mais fraca é a função frontal em relação à memória operacional, regulação das emoções, controlo de impulsos e tomada de decisões executivas; além disso, para obter uma regulação frontal equivalente, as crianças com estatuto socioeconómico mais baixo devem ativar mais o córtex frontal do que as crianças com estatuto socioeconómico mais alto. Além disso, a pobreza infantil prejudica a maturação do corpo caloso, um feixe de fibras axonais que conectam os dois hemisférios e integram a sua função. Isso é tão errado – escolha estupidamente uma família pobre para nascer e, no jardim de infância, a probabilidade de ter sucesso nos testes de marshmallow da vida já estão contra si.
Pesquisas consideráveis ​​concentram-se em como a pobreza “penetra na pele”. Alguns mecanismos são específicos para o ser humano – se é pobre, é mais provável que cresça próximo de toxinas ambientais, num bairro perigoso, com mais lojas de bebidas alcoólicas do que os mercados que vendem vegetais; é menos provável que frequente uma boa escola ou tenha pais com tempo para ler para si. É provável que na sua comunidade tenha pouco capital social e você, baixa auto-estima.”
Mas estas pessoas, para além de terem nascido numa família com condições sócio-económicas favoráveis e terem a bênção genética, também conseguiram ter o “mérito” de nascer num país, numa sociedade, capaz de aproveitar todo o seu esforço e mérito. Como exemplo, se fossem mulheres e nascessem na Arábia Saudita, dificilmente iriam conseguir alcançar alguma coisa de relevante, dadas as limitações impostas às mulheres nessa sociedade. Ou se tivessem nascido numa aldeia na Nigéria e a vossa aldeia fosse dizimida pelo Boko Haram e vocês transformados em Crianças-Soldado, dificilmente iriam ter capacidade para criar uma Startup fantástica na área da Inteligência Artificial. Portanto, parabéns pela vossa sorte.

Os “Meritocráticos” Versus Instituições Governamentais

A coisa mais perversa associada a esta ideia da meritocracia, é que levou a uma corrente liberal anti-Estado. No fundo, a lógica é a seguinte: “se eu fui bem sucedido na vida à conta do meu esforço e tu não foste bem sucedido porque és um preguiçoso e não te esforçaste o suficiente, porque é que eu tenho que pagar mais impostos para te sustentar a ti?”
Surge assim a ideia do “Self Made Man” criado no vazio, como se não tivesse sido o Estado (ou seja, todos nós), os responsáveis pela criação das infraestruturas, das instituições e serviços que permitiram ao “Self Made Man” prosperar. Mas o mais importante, é que o Estado é dos poucos mecanismos que poderá impor um verdadeiro sistema meritocrático, ajudando a reduzir as desvantagens existentes entres os diferentes estratos sociais, para que as crianças que tiveram o azar de ser menos afortunadas nos ambientes em que nasceram, tenha menos desvantagens em comparação às crianças que nasceram em “berços de ouro”. Um estudo da OCDE mostra quantas gerações são necessárias para subir no estrato sócio-económico. E não há surpresas…países nórdicos, conhecidos pela sua menor desigualdade sócio-económica, permite uma mais rápida mobilidade social.
Não só isso, como o desrespeito pelo Estado demonstrado por esta ala meritocrática é um pontapé na boca a todos nós, já que o investimento público em investigação, inovação, tecnologia é um dos grandes pilares que permite que estes “Self Made Man” vão surgindo. O telemóvel que temos na mão, é graças ao investimento do Estado. Mesma coisa para GPS, baterias de lítio, airbags e a Internet. E a mesma coisa para muitos dos fármacos que consumimos hoje em dia (123).
Mas não é apenas isso. É a sociedade e todas as instituições criadas pela sociedade que permitiram a evolução cultural e a acumulação de conhecimento. Portanto, quando um “Self Made Man” cria alguma tecnologia revolucionária, o mérito dele é uma ínfima parte de todo o processo de criação, já que assenta em conhecimento produzido por milhares de pessoas que o antecederam. Aliás, hoje em dia grandes descobertas são feitas por equipas de pessoas e não por uma pessoa só, dada a complexidade cada vez maior em fazer avançar o conhecimento e produzir tecnologia.
Mas mais…estes Meritocratas não seriam nada, na ausência das pessoas “sem grande mérito” ou status social, que lhes produzem a comida, constroem a casa, mantém os sistemas de canalização, de eletricidade e aquecimento, fazem recolha do lixo, etc. Aqueles funcionários sem mérito que recebem pouco, mas que mantêm todas as nossas infrastruturas a funcionar.
Citando o Ricardo Lopes, do Canal Dissenter, esta atitude dos meritocratas “é uma falta de respeito abjecta pela sociedade em que vivem, pela longa história da humanidade e o nível mais alto de arrogância e egocentrismo que alguém pode atingir.
O Meritocrata não é nada sem a sociedade em que está inserido e as condições que essa sociedade lhe proporcionou para se transformar neste “Self Made Man”, super empreendedor, que enriqueceu imenso graças a uma ideia genial criada às costas de milhares de pessoas que contribuíram para que essa ideia genial pudesse ter surgido.

Conclusão

Portanto, o nosso mérito será qualquer coisa como 90% sorte, 10% esforço. Certamente que ver as coisas desta forma tira muito glamour a todas as nossas conquistas sociais. Mas é a realidade.
Que fique claro, não se está a falar contra os empreendedores. Eles têm mérito e alguns deles revolucionaram a sociedade em que vivemos. Agora, que se acabe com esta ideia que surgem no vazio, que o seu mérito é exclusivamente seu e que os com pouco mérito o são por “preguiça” e “não se terem esforçado o suficiente”. Obviamente que também existem os preguiçosos, mas a generalização como forma de atacar o Estado Social para reduzir a contribuição do “Self Made Man” via impostos para a sociedade, é só ridícula.
E, para quem acha que o “Self Made Man” conseguiu erguer-se à custa de um trabalho imenso, investindo 100 horas por semana na sua carreira, desengane-se. Os CEOs trabalham em média 60 horas por semana. Não é mau…mas agora vamos imaginar a mãe solteira com dois empregos, a receber o ordenado mínimo, sem ajuda em casa para tomar conta dos filhos, o que significa que ainda tem que fazer a lida doméstica e acompanhar as crianças na escola…faltará esforço a esta pessoa? Onde está a sua recompensa por este esforço? Ou terá tido azar relativamente às suas condicionantes de vida?
E terminamos com um vídeo do Rationality Rules, que devia ser visto por todos estes Self Made Man liberais, que pensam no Estado como um sorvedouro de impostos inútil, que apenas serve para matar a iniciativa privada:

11.12.19

A Loja TEMPLÁRIOS da Maçonaria Portuguesa - Tomar quer o Santo Ofício em pleno Século XXI?


Com base numa entrevista do Grão Mestre da Maçonaria Portuguesa - a chamada obediência do Grande Oriente Lusitano, à revista Sábado, dando conta da abertura em Tomar - em Maçonaria diz-se "levantamento de colunas", de mais uma Loja Maçónica, muito uma parte da Cidade, dita, pensante, se tem agitado.

Tal movimentação na cidade que foi sede da Ordem de Cristo - por alturas do domínio do Santo Ofício, que queimava literalmente os Hereges (entre os quais muitos que não deixavam de pensar pela própria cabeça), não é nada de estranhar, uma vez que tendo esta sucedido à anterior ordem dos Templários, ela própria foi perseguida pela Igreja Católica (o poder de então), com absurdas acusações, as quais só no final do Sec.XX viriam a ser retiradas pelo Papado.

Numa cidade, onde uma parte parece ter parado num tempo de perseguições e verdades absolutas, onde uma parte dos seus históricos dirigentes - uma pequena e pouco letrada, elite, se julga detentor do direito de impor uma vontade, não é de estranhar que tal dê a necessária e conveniente polémica, especialmente quando às notícias se juntam alguns nomes ligados atual ou anteriormente à politica local (como é o meu caso).


A Maçonaria não trata de nada que não esteja ligado à ética, à filosofia e vocacionada para o engrandecimento individual de cada um dos seus membros, seguindo históricos e ancestrais preceitos, os quais especulativamente os ligam aos Templários e a outras ordens, de tipo iniciático, mas que na sua vertente meramente especulativa, apenas tem existência a partir do início do século das luzes, o século XVIII, na Inglaterra.

Mas, clarifiquemos:

A Maçonaria não é, como os seus habituais e dogmáticos detratores muitas das vezes propalam, contra qualquer religião, nem a favor de qualquer ideologia, respeitando todas e, bem assim, uma boa parte das suas obediências promove mesmo, especialmente nos níveis mais elevados da hierarquia organizativa que têm - em Maçonaria chamam-se Graus, promove, escrevia, o mais profundo respeito pela divergência especulativa, como forma de engrandecimento intelectual e o livre arbítrio, como plataforma base, para a melhoria do indivíduo.

O respeito e a tolerância perante o pensamento individual e o outro indivíduo são, segundo o que pude estudar e apurar, a base dos seus trabalhos e dos textos que, produzidos pelos seus membros, são discutidos em Loja, uma vezes chamados de Pranchas, outras de Baluartes, consoante o Grau em que são trabalhados. Por aqui se vê a profunda antítese existente entre o trabalho em Maçonaria e, por exemplo, os trabalhos realizados no seio de Igrejas ou Seitas, de qualquer cariz, onde existe sempre um ou vários textos base, aceites e determinados, bem como um ou vários líderes que os seus membros segam, interpretem ou idolatrem.

O modo de atuação da Maçonaria, aproxima-se muito mais do sistema de produção científica, do que de qualquer religião ou seguidismo ideológico. Em Maçonaria, pelo menos nas obediências mais modernas, não há Bíblias, Toras ou Alcorões, nem "Capitais", de Marx ou "Liberdades para Escolher" de Friedman, podendo isso sim, todos eles ser estudados, discutidos e avaliados pelos, denominados, Irmãos em Loja.

Se os Maçons procuram entreajudar-se? Sim. Mas isso não acontece em todas as organizações feitas pelo Homem? Em que tal difere de uma qualquer Associação, Igreja, Clube, Empresa ou ONG? Serão eles culpados de preferirem ser livres no pensamento, em detrimento de seguirem um qualquer pastor, guru ou simplesmente idolatrarem livros, dogmas ou figuras? Não seguem eles os princípios éticos e de valores base da civilização moderna: colocarem TUDO em causa e respeitarem TODOS, nas suas diferenças e visões?

E não, não é a primeira vez que existem Lojas Maçónicas em Tomar, ligadas ao Grande Oriente Lusitano. Só neste século, já é a segunda, tal como se sabe que a Loja Maçónica "Templários" existiu em Tomar, registada com o numero 271, no Grande Oriente Lusitano, funcionando entre 1906 e 1909.

Fonte: A Maçonaria e a implantação da República, numa edição do Grémio Lusitano e Fundação Mário Soares, com o apoio da Comissão do Centenário da República, ISBN 978-972-8885-21-2


P.S. - Julgo que não é difícil para quem não deixe de procurar olhar para a realidade e interpretá-la de forma racional e civilizada, que sendo a ignorância muito atrevida, só o esforço individual e coletivo, para darmos ao outro o respeito que exijamos para nós próprios, nos afasta do tempo das Cavernas, dos Santos Ofícios e de outros períodos negros da História Humana, os quais devem de ficar só e apenas nela.
Ter medo do desconhecido NUNCA criou Homens melhores e muito menos uma Humanidade melhor!

29.10.18

Cinco factos sobre a Iniciação Maçónica

Para uma educação maçónica permanente, com o alto patrocínio do Grande Oriente do Brasil.
 

13.10.16

As origens históricas da Laicidade, contributo de reflexão

Continuando o esforço para a transmissão e outros ensinamentos, que não os habitualmente dissimulados nos blogues, fazemos hoje um esforço, com uma análise sobre as origens históricas da Laicidade, numa visão maçónica.



LAICIDADE - ORIGENS HISTÓRICAS
Proposta de abordagem sintética

A dificuldade quando se fala em "origens históricas", é a de fugir à sucessão cronológica de factos históricos e de referências, que tornem a leitura impossível de realizar sem tempo ou consultas complementares. Não é esse o objetivo deste texto, mas sim o de fazer uma abordagem sintética, passível de ser percetível em tempo curto pelo leitor e nele levantar mais dúvidas do que certezas, valorizando o nosso papel de permanentes aprendizes.

O conceito de "Laicidade" tem diversas e diferentes abordagens, pelo que recordo aqui o de Étienne Pion, que em 1991, no seu prostíbulo "Lávenir laique", refere "pretender definir o conceito de Laicidade é pretender fixar o seu conteúdo de um modo que pode parecer intangível, para não dizer dogmático, o que seria atraiçoar o próprio espírito laico que exige uma abordagem mais aberta dos conceitos". ora, podemos ainda procurar na história os conceitos relacionados, pelo que encontramos na Grécia a palavra "Laikos", que define algo pertencente ao povo como classe social e já os romanos utilizaram com sentido semelhante a palavra "Laicus". Interessante base etimológica, ao ligar, desde logo o Laicismo, ao Povo, ou mais concretamente a algo que lhe é próprio, que lhe pertence.

Também nos primeiros séculos encontramos no cristianismo a distinção entre autoridade espiritual e poder temporal. A inviolabilidade recíproca das duas jurisdições decorrente do recurso aos textos sagrados é reconhecida como válida pelo Papa Gelásio I, através da imagem das duas espadas, que uma só mão não pode empunhar ao mesmo tempo... O objetivo então, desta imagem, era a de subtrair a aplicação da Justiça civil aos eclesiásticos, o que daria origem a uma guerra surda e permanente, entre o papa e especialmente os Reis de França.

As querelas entre o Papado e as autoridades civis e pensadores não eclesiásticos iriam continuar, em que personagens como Dante ou Marsílio de Pádua, se colocam ao lado da tolerância defendida pelos Reis e Imperadores...


Outras correntes intelectuais tomam posições semelhantes, como por exemplo a reforma protestante, na qual eruditos e humanistas do renascimento, como Maquiavel e Galileu, reforçados pelos racionalistas Espinosa e Locke, formam a base ideológica indispensável ao desenvolvimento do conceito do Estado Moderno.

John Locke publicou em 1689 a sua Carta da Tolerância, em que se interrogava sobre as relações do poder temporal (Estado) e o poder espiritual (Igreja), no qual analisa a autoridade política, distinguindo claramente os papeis da Igreja e do Estado. Para ele o Estado é uma sociedade de Homens, instituídas com o único fim do estabelecimento, da conservação e do progresso dos seus interesses civis. A autoridade estatal não se estende até à salvação das almas, mister do divino.

Ao Estado compete assim tratar da terra e a Religião tratar do céu...
É neste espírito que surge aquele que ficaria conhecida como a primeira lei anti-racista do mundo e que foi promulgada por Luis XIV, a qual condenava com multa de 500 libras todo o indivíduo que tratasse alguém do povo maldito (cagot) habitante do sudoeste de frança e navarra, com intenção injuriosa.

O conceito de laicidade reveste-se assim de universalidade, mas não se pode deixar de considerar tratar-se de uma invasão francesa,  a qual teve a sua génese na revolução francesa, muito especialmente por esta ser a época fundadora de referência para tudo o que diz respeito aos direitos do homem, iniciados com a declaração francesa de 1789, redigida pouco depois das declarações americanas semelhantes.
A importância da declaração francesa funda-se no facto da sociedade francesa da época, ser baseada no monopólio religioso imposto pelo catolicismo (em consequência da revogação do Édito de Nantes de 1685) e, ligada a isso, pela denúncia da filosofia do Iluminismo, do fanatismo religioso.

A Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, é feita em presença e sob os auspícios do Ser supremo, a qual vem a ser desautorizada pelo Papa, em bora numerosos eclesiásticos tenham contribuído para a sua elaboração. Isto leva a que a revolução francesa entre em conflito com a religião católica.

Este conflito leva à tentativa de controlar a religião católica (1790), à sacralização da própria revolução (1793), com perseguições político-religiosas, até ser instaurada uma efêmera separação entre a Igreja e o Estado (1795).
A revolução francesa, pode-se assim dizer, tendo proclamado princípios laicos, não os conseguiu implantar!
Esta aplicação só viria a surgir com Napoleão Bonaparte, o qual põe fim à separação entre a Igreja e o Estado, confirmando assim certas mudanças operadas pela revolução e com isto, estabiliza um primeiro limiar de Laicização.

O Estado é laico nos seus fundamentos e o código civil dos franceses não contém qualquer prescrição religiosa. O estado civil é laicizado e um casamento civil constitui o pré-requisito obrigatório de toda a cerimónia religiosa de casamento.

Embora seja contemplada com uma concordata, assinada em 1801 com o Papa, a Igreja Católica teve de aceitar um regime de igualdade formal com outros cultos reconhecidos, como fossem os protestantismos luterano e reformado, judeísmo, etc...

Estavam assim lançadas as bases para que a laicidade, já no sec.XX, fosse inscrita pela primeira vez na Constituição da IV República Francesa (1946), sendo que com a instauração da V República, a 4 de outubro de 1958, viesse a constituição a definir no seu artigo 2º, que: "A França é uma República indivisível, laica, democrática e social. Ela garante a igualdade perante a lei de todos os cidadãos, sem distinção de origem, raça ou religião. Ela respeita todas as crenças".

Depois disto a grande dúvida que se deve formular hoje é se esse respeito se mantem nos dias de hoje...

Parece haver um certo desajustamento na Laicidade apregoada pela democracia contemporânea, bem visível nas notas verdes do seu mega-símbolo que são os Estados Unidos da América, o qual se resume na pequena frase: In God we trust (confiamos em Deus).

Os recentes ressurgimentos dos fundamentalismos, constitui um facto grave pois defende a restauração da ordem teocrática, ou seja, um sistema político e socialmente esvaziado e determinantemente dominado pelo religioso.
Se dúvidas houvesse, George W Bush, aquando da guerra do Iraque afirmou solenemente: "deus está do nosso lado". E depois ainda nos admiramos...


Bibliografia base
Com o contributo de sistematização de Fernando Pessoa;
Wikipédia;
"Glossário essencial da laicidade", adaptado do livro "L'avenir laique", de Étienne Pion;
Revista de "História das Ideias" - O estado e a Igreja, Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra;
"Livret Blanc de la Laicité";
Análises e reflexões - a laicidade, de Jean Baubérot

9.10.16

As nuvens e o candelabro

A história é simples e escreve-se em poucas palavras.
Domingo, diz-se, é o dia do senhor. E isto apesar de ser o primeiro dia da semana. Estranhamente quase só a língua portuguesa mantém essa tradição: a seguir ao domingo vem a "segunda". Nas outras línguas ocidentais esse é o dia da "lua"...
Assim, Óbidos foi e é um sítio único, onde a par de Santa Maria da Feira, o turismo cultural se fez gente grande.
Tomar anseia pelo seu lugar. Falta alma, não falta gente. Falta visão, não falta potencial. Falta seriedade, não faltam avisos.
Os símbolos cá estão, à espera de serem, finalmente, valorizados.

30.7.16

Os valores de sempre, numa abordagem do que é Secreto e deve ser Discreto

(B)oas e (J)ustas Férias
 
O tema das sociedades "secretas" surge, ciclicamente, na comunicação social, como um recurso com sucesso quando faltam outras notícias mais sensacionalistas ou quando se procura desviar a atenção da opinião pública para factos mais graves.
 
O sensacionalismo foi sempre um expediente utilizado como elemento de diversão, explorando a emotividade e a avidez natural da opinião pública pelo escândalo ou pelo estranho e desconhecido.

Os exemplos vão-se amontoando ao longo dos últimos anos, com a repetição de títulos e notícias, com a publicação e listas, ao bom estilo inquisitorial, bem como o desenvolvimento de insinuações ou sobre os membros da Maç:. ou sobre os seus propósitos. Apesar disso e, fruto da vertiginosa velocidade a que hoje as notícias fluem, o que é hoje notícia fantástica, cai amanhã, no mais completo esquecimento, fruto de outra polémica, de outra fantasiosa notícia de grande relevo que aparece. Assim é este admirável mundo novo.
 
Não será por acaso que, nos últimos anos, fruto dessa publicidade de tendência negativa, mas que apenas aguça o interesse daqueles que estão um pouco mais atentos ao que os rodeia e, bem assim, auguram obter as respostas habituais das pessoas sérias e inteligentes, as quais julgam saber, poder encontrar nas organizações Maçónicas, pilar da estabilidade ética da República e trave mestra dos valores e princípios que fundam a História moderna, depois da Revolução Francesa - Liberdade, Igualdade e Fraternidade.
 
Todos os detentores do poder político, quer sejam ou não maçons, sabem bem as linhas éticas, de valores e de princípios que não podem ser violadas, sob pena do edifício da credibilidade, da seriedade e da legítima expetativa de confiança, nos atores públicos e políticos ser violada.
 
Aos que estão na politica, na vida pública, espera-se que tenham um comportamento que valorize os princípios e os valores base e comumente aceites pela sociedade que visam representar, seguindo os ditames da ética, não interferindo em assunto de interesse próprio, não perseguindo pessoas em razão do seu sexo, raça, religião, pensamento ou ação, não cometendo os comuns crimes de perjúrio ou assédio, enfim procurando pelo seu exemplo, impor uma conduta que seja, única e exclusivamente assente, na defesa do interesse geral e no respeito solidário pelos companheiros de jornada.
Nem é preciso ser Maçon, para saber que é e tem de ser.
 
Mas afinal o que é uma associação secreta, como comumente se diz ser a Maçonaria. Uma abordagem de definição aponta-nos para que secreto seja "o que se conserva oculto; que está em segredo; ignorado; não divulgado; escondido; encoberto; não revelado; não sabido", podendo ainda ser, segundo outros, secreto será "o que se limita a um conhecimento reservado em virtude do mistério que o envolve". Nesta perspetiva secreto aparece quase como sinónimo de discreto, de reservado. Assim são tratados os circuitos de informações (de inteligência) militares e civis, de defesa da República, bem como muitos dos acordos entre Estados, entre grupos políticos dentro de um país e, muito especialmente, entre membros de uma família, para defesa dos seus interesses gerais e comuns.
 
Para terminar esta leve abordagem, sobre a essência do secretismos, na vida e na Maçonaria, neste texto de apelo ao mais elementar bom senso do leitos, nas vésperas de mais uns milhares deixarem de ler "coisas pesadas" e dedicarem-se à simplicidade de viver a vida despreocupadamente, estirados na rede gentilmente segura pelas colunas J e B, deixo-vos com um simpático pensamento de Fernando Pessoa, que ao defender a existência da Maçonaria, contrariando o argumento de que se tratava de uma associação secreta e por isso "perniciosa", este escreveu que: "dada a latitude desta definição [de secreta], e considerando que por associação, se entende um agrupamento mais ou menos permanente de Homens, ligados por um fim comum, e que por secreto se entende o que, pelo menos parcialmente, se não faz à vista do público, ou, feito, se não torna inteiramente público, posso, desde já, denunciar aos poderes "fáticos" do tempo presente, uma associação secreta - o Conselho de Ministros! De resto, tudo quanto de sério ou de importante se faz em reunião neste mundo, faz-se secretamente".
 
 
(texto elaborado com o primoroso contributo de "uma História da Maçonaria em Portugal 1727-1986, de António Ventura, numa edição do Circulo de Leitores)

24.7.16

A instrução e o operariado nas vésperas da República - Maçonaria e história

(Continuando as abordagens de recolha e partilha de saberes sobre a Maçonaria e, também sobre a História da nossa sociedade, abordamos hoje a questão da educação (instrução) e do operariado, nas vésperas da implantação da República a 5 de outubro de 1910)
 
As elites culturais da época entendiam que a instrução - hoje a educação, seria a razão de modificações sociais, o que muito diz da influência do Marxismo no final do sec.XIX e princípios do Sec.XX, e daí, positivistas [ver Augusto Comte] e republicanos acreditarem na construção do "Homem Novo" -, neste caso o "cidadão republicano". por isso, o esforço continuado de levar a instrução (a educação) ao operariado e, em geral, às camadas mais desfavorecidas da sociedade, utilizando comos e diria hoje a Educação como "elevador social".
 
São múltiplas as iniciativas lançadas, entre 1870 e 1910, com esse mesmo propósito, especialmente com duas origens distintas: as de inspiração maçónica e as de génese sindicalista, não sendo ainda hoje possível determinar os respetivos cruzamentos e influências mútuas.
 
É por esta altura que aparecem os "Grémios", que Tomar também teve, onde hoje está o edifício do notário na Rotunda Alves Redol (nome bem a propósito), sendo estes Grémios na sua maioria uma versão profana das Lojas Maçónicas, ao mesmo tempo que se intensifica a ação no campo da instrução pública das associações para maçónicas, como a do livre pensamento ou a do registo civil e também a rede de Jardins Escola João de Deus.
 
Por outro lado, surgem inúmeras escolas da iniciativa das associações de classe e sindicatos. Aliás as Escolas sindicais desempenharam nessa altura um importante papel na organização social e profissional de milhares de operários de Lisboa e do Porto, papel esse que por vezes é também sublinhado com a criação de cooperativas de consumo - fenómeno aliás que se viria a repetir a seguir ao 25 de abril de 1974... 
 
Os grandes sindicatos de Lisboa, como o da construção civil e o dos metalúrgicos, dispunham de sedes onde também funcionavam escolas, na maioria das vezes em horário noturno. É de destacar também o caso dos corticeiros de Silves e dos marítimos de Setúbal, no sentido de conseguirem instalações condignas para a criação de Escolas.
E mesmo em sindicatos de menor dimensão ou de exíguos recursos financeiros, as dificuldades económicas ou de instalações nunca constituíram um impedimento absoluto para a construção de escolas. por vezes, verifica-se mesmo a associação de várias estruturas de classe no sentido de partilharem um espaço único para esse fim, hoje chamar-se-iam, "fábricas de cultura" ou "ninhos de empresas", onde às despesas com a sala de aulas se somava o material escolar e o pagamento a uma professora.
 
Este fenómeno, consolidava, por um lado, os laços das comunidades que giravam em volta das instituições promotoras e, por outro, contribuía para levar aos alunos quadros de valores republicanos, sociais e laicos, em muito afastados dos que eram praticados no ensino oficial e religioso (que era a esmagadora maioria da oferta até então existente).
 
Que bom seria que nas últimas décadas esse tivesse sido o quadro estratégico de atuação, promovendo a laicização do ensino, com promoção pública e não confessional de todos os graus de ensino, na promoção dos valores da igualdade, da liberdade e da solidariedade. Uma escola inclusa, onde TODOS pudessem desenvolver as suas competências, mas também promovesse o livre-arbítrio como fator indispensável deste "Homem Novo", sempre reinventado que ansiosamente procuramos...

18.7.16

SOMOS SEMPRE "UM OPERÁRIO EM CONSTRUÇÃO" !

(Em modo de Verão, nas próximas seis semanas, apenas com atualização a cada três dias)


O OPERÁRIO EM CONSTRUÇÃO
Vinícius de Moraes, 1970


ERA ELE que erguia as casas
Onde antes só havia chão.
Como um pássaro sem asas
Ele subia com as casas
Que lhe brotavam da mão.
Mas tudo desconhecia
De sua grande missão:
Não sabia, por exemplo
Que a casa de um homem é um Templo
Um Templo sem religião
Como tampouco sabia
Que a casa que ele fazia
Sendo a sua liberdade
Era a sua escravidão.

De fato, como podia
um operário em construção
Compreender porque um tijolo
Valia mais do que um pão?
Tijolos ele empilhava
Com pá, cimento e esquadria
Quanto ao pão, ele o comia...
Mas fosse comer tijolo!
E assim o operário ia
Com suor e com cimento
Erguendo uma casa aqui
Adiante um apartamento
Além uma igreja, à frente
Um quartel e uma prisão:
Prisão de que ele sofreria
Não fosse, eventualmente
Um operário em construção.

Mas ele desconhecia
Esse fato extraordinário:
Que o operário faz a coisa
E a coisa faz o operário.

De forma que, certo dia
À mesa ao cortar o pão
O operário foi tomado
De uma súbita emoção
Ao constatar assombrado
Que tudo naquela mesa
- Garrafa, prato, facão -
Era ele quem os fazia
Ele, um humilde operário
Um operário que sabia
Exercer a profissão.

Ah, homens de pensamento
Não sabereis nunca o quanto
Aquele humilde operário
Soube naquele momento!
Naquela casa vazia
Que ele mesmo levantara
Um mundo novo nascia
De que sequer suspeitava.
O operário emocionado
Olhou sua própria mão
Sua rude mão de operário
De operário em construção
E olhando bem para ela
Teve um segundo a impressão
De que não havia no mundo
Coisa que fosse mais bela.
Foi dentro da compreensão
Desse instante solitário
Que, tal sua construção
Cresceu também o operário.
Cresceu em alto e profundo
Em largo e no coração
E como tudo que cresce
Ele não cresceu em vão
Pois além do que sabia
- Exercer a profissão -
O operário adquiriu
Uma nova dimensão:
A dimensão da poesia.

E um fato novo se viu
Que a todos admirava:
O que o operário dizia
Outro operário escutava.
E foi assim que o operário
Do edifício em construção
Que sempre dizia sim
começou a dizer não.
E aprendeu a notar coisas
A que não dava atenção:
Notou que a sua marmita
Era o prato do patrão
Que sua cerveja preta
Era o uísque do patrão
Que o seu macacão de zuarte
Era o terno do patrão
Que o casebre onde morava
Era a mansão do patrão
Que a dureza do seu dia
Era a noite do patrão
Que sua imensa fadiga
Era amiga do patrão.
E o operário disse: Não!
E o operário fez-se forte
na sua resolução.
Como era de se esperar
As bocas da delação
Começaram a dizer coisas
Aos ouvidos do patrão.
Mas o patrão não queria
Nenhuma preocupação.
«... convençam-no» do contrário
Disse ele sobre o operário
E ao dizer isso sorria.

Dia seguinte, o operário
Qo sair da construção
Viu-se súbito cercado
Dos homens da delação
E sofreu por destinado
Sua primeira agressão.
Teve seu rosto cuspido
Teve seu braço quebrado
mas quando foi perguntado
O operário disse: Não!

Em vão sofrera o operário
Sua primeira agressão
Muitas outras se seguiram
Muitas outras seguirão
Porém, por imprescindível
Ao edifício em construção
Seu trabalho prosseguia
E todo o seu sofrimento
Misturava-se ao cimento
Da construção que crescia.

Sentido que a violência
Não dobraria o operário
Um dia tentou o patrão
Dobrá-lo de modo vário.
De sorte que o foi levando
Ao alto da construção
E num momento de tempo
Mostrou-lhe toda a região
E apontando-a ao operário
Fez-lhe esta declaração_
- Dar-te-ei todo esse poder
E a sua satisfação
Porque a mim me foi entregue
E dou-o a quem bem quiser.
Dou-te tempo de lazer
Dou-te tempo de mulher.
Portanto, tudo o que vês
Será teu se me adorares
E, ainda mais, se abandonares
O que te faz dizer não.

Disse, e fitou o operário
Que olhava e que reflectia
Mas o que via o operário
O patrão nunca veria.
O operário via as casas
E dentro das estruturas
Via coisas, objectos
Produtos, manufacturas
Via tudo o que fazia
O lucro do seu patrão
E em cada coisa que via
Misteriosamente havia
A marca da sua mão.
E o operário disse: Não!

- Loucura! - gritou o patrão
Não Vês o que te dou eu?
- Mentira! - disse o operário
Não podes dar-me o que é meu.
E um grande silencia fez-se
dentro do seu coração
Um silêncio de martírios
um silêncio de prisão.
Um silêncio povoado
De pedidos de perdão
Um silêncio apavorado
Com o medo em solidão.
Um silêncio de torturas
e gritos de maldição
Um silêncio de fraturas
A se arrastarem no chão.
E o operário ouviu a voz
De todos os seus irmãos
Os seus irmãos que morreram
Por outros que viverão.
uma esperança sincera
Cresceu no seu coração
E dentro da tarde mansa
Agigantou-se a razão
De um homem pobre e esquecido
razão porém que fizera
Em operário construído
O operário em construção.