LIVRO - A última bolacha do pacote (pré-publicação faseada)

pessoa que como indivíduo é a melhor ou a única escolha inescapável como opção ideal ou viável

A ÚLTIMA BOLACHA DO PACOTE*
Instantâneos de um mundo político de saltos altos


* pessoa que como indivíduo é a melhor ou a única escolha inescapável como opção ideal ou viável

I
Genéve, 1987
Fui!
Acordei ainda seminua, naquele vaguear estranho de uma noite dormida demasiado depressa. Podia olhar para o lado, mas hesitei.
Fiz bem.
Se calhar, no Chemin Buisson, ali ao lado da École Buisson haveria outras que, como eu, serviam nos botequins de achamento, qual lupanar de Pompeia, que debandava desde Lisboa.
Achava desculpas? Seria da bebida? Do fumo dos Havanos? Dos odores antilhanos ou a lembrar a Xangai dos anos 20?
Quando se é nova, nenhum excesso conta. Tudo parece passar. O vapor, as náuseas, os fumos caros e os whiskys velhos.
Ser jovem é, por definição, o caminho certo para qualquer solução. Nada é problema. Esses, se os houver, vêm depois. Semanas e meses depois,... Muito depois.


II
Lisboa, 2009
Estou!
Ufa, que a cerimónia não tem mais fim e arrasta-se indefinidamente. Protocolo de Estado, diziam eles…
Isto, para mim, é uma seca. Depois de horas a compor maquilhagem, uma corrida entre elevadores do Four Seasons, o táxi e o trânsito fluído daquela manhã feriado na capital, ali estava.
Olhei em volta.
Que belos que estavam os militares, das tropas em parada. Sempre tive um tremor com as fardas e com as fábricas. Das primeiras tomava-lhe cada vez mais o gosto e das segundas, os árduos anos de suor e magros salários.
É bom ser livre, pois ter nascido num país de ditadura, e crescido na dificuldade de uma mãe que delapidara a riqueza de família, ser agora Diretora-geral, neste Estado grande e protetor, é de mulher!
É bom ser astuta, pois outras continuaram, como eu em tempos, a ter de dar o corpo ao manifesto, a aturar os homens com quem padecemos.  Mas eu não. Soube pisar e bem, cada degrau que se me colocara.
Olhei.
Ao longe vislumbrei António, que naquela manhã parecia andar ainda mais radioso do que quando na noite anterior se esgueirara do quarto, dizendo que tinha de se preparar.
E o que eu gostava de fardas.
Ali estava o meu comandante, dando ordens àqueles Homens bem perfilados, enquanto a Banda preparava o ataque ao Hino da Maria da Fonte.
Que bem se estava em Lisboa. António, apesar de muito ocupado, lá me ia servindo de degrau, como outros antes dele.

Mas não há moral no sexo, só ética. A do prazer!


III
Lisboa, 1992

Estava!
Ena que calor.
Estou farta do cheiro do tomate.
Que raio. Quando o João me trouxe, ainda acreditei que era desta, mas não. Os tempos passavam e as horas mornas, como morna estava eu naquele dia naquela máquina de embalamento.
Puf...Puf... Mais um embalamento que findava, naquela linha e outra iniciava,... sem parar.,,, morna, que morna estava!

Olhei. Marta escorria-lhe da face um suor que pressupus frio, só pelo olhar dela. Deixara Mariana coma avó. Que sorte tinha ela, a Marta. Eu, que já poderia ter tido uma Rita ou um Alberto,... Mas não, que raio. Parecia que o meu corpo só produzia e alimentava prazer e o gosto de o dar, mas sem conseguir dar vida. Pensava tantas vezes nisso.
Que se lixe, que a vida de uma mulher não é só parir, mas também fazer homens. E eu hei-de conseguir. Isso e muito mais. Vão ver!


IV
Troyes, 1989


Aqui.
Bem, nunca pensei em me ver aqui, mas Benito não queria deixar de passar neste descampado perdido, entre as florestas e campos de trincheiras da grande guerra, a primeira mundial, como hoje lhe chamamos, depois dos dias frenéticos que consumimos em Berlim e dessa longa travessia por essa Alemanha de deboche...