4.10.17

Será que quem ganha, tem sempre razão?


O título deste artigo, mais do que uma pergunta escolástica, é ele próprio um programa de trabalho, pois todos sabemos que a resposta à pergunta é negativa.

Ganhar é tão só, ter mais votos e isso, muitas vezes em resultado do facto de estar no lugar certo à hora certa e, por mérito próprio, cometer eventualmente menos erros que os principais desafiadores.

Foi o que aconteceu em Tomar nestas eleições.

Senão vejamos.

Todos os presidentes de junta de freguesia viram os seus mandatos renovados e, todos eles, viram as suas maiorias, ou no caso da cidade minorias, reforçadas. Todos? Bem. Nem todos, pois houve um que foi desalojado sem apelo nem agravo, porque não tinha jeito, porque dormiu à sombra e porque pensou que os paradigmas dos passados das lutas operárias, garantiam o futuro dos amanhãs que cantavam. Paialvo livrou-se, de facto, de uma pecha do arqueísmo da CDU, que era motivo de risada permanente da comunidade política local.

Em conclusão, quem trabalha bem e não inventa desculpas para as dificuldades, vê o seu esforço recompensado. As retumbantes vitórias de Carlos Rodrigues (8/1) na Asseiceira ou de João Luis (7/2) nos Casais/Alviobeira, são disso claro exemplo. Mérito próprio dos presidentes, mas também da nova relação estabelecida a partir do modelo – pela primeira vez legal, de financiamento das delegações de competências nas freguesias e dos respetivos contratos inter-administrativos estabelecidos. Adiado durante anos, este foi um dos graves erros das anteriores gestões PSD da Câmara, aqui claramente demonstrado.

A CDU, mais do que qualquer outro partido é, nestas eleições, verdadeiramente humilhada, uma vez que mesmo tendo aumentado o numero de votos disponíveis (votantes menos votos nulos e brancos), em cerca de 413, a CDU conseguiu perder 279 votos na eleição para a Câmara Municipal e baixar mais de 1,4%. Perdida a única freguesia e o único vereador, a CDU é nestas eleições autárquicas a grande derrotada.

Mas a pergunta que se fez, foi se quem ganha, tem sempre razão. Não.

O PS ao ganhar, com uma estratégia de assimilação dos ex-independentes e, especialmente depois das infelizes circunstâncias de saúde que decapitaram a candidatura do PSD, expectava um caminho triunfal para um resultado histórico, que alguns antecipavam para próximo dos 50% dos votos, obtidos por Pedro Marques em 1993. Ao quedar-se pelos 40,2% para a Câmara (com maioria) e por 38,5% para a Assembleia (sem maioria), o PS pode dar-se por feliz de ter conseguido ganhar, num cenário de franco “desaparecimento” do PSD a nível nacional, o que não aconteceu em Tomar, onde este não só resistiu, como manteve todas as juntas de freguesia, aumentando o numero de vereadores e de deputados municipais. Vamos ter nestes quatro anos menos PS e mais Anabela Freitas, o que pelo que fomos vendo nos últimos dois anos, não é objetivamente bom.

Alguns menos atentos irão andar ufanos, quiçá rejubilantes, de ter conseguido ganhar, convictos que todos os fatores, já bem observáveis nos últimos dois anos de governação, não se agravarão. Ao colocar dentro da Câmara Pedro Marques e alguns seus indefetíveis, o PS cometeu um erro monumental para o interesse público. Foi aliás esse o principal fator que não permitiu, aquele que poderia ter sido um resultado histórico do PS no Concelho de Tomar: é que o povo não esquece! Anabela Freitas reconduzida, como seria expectável, fica assim com a faca e o queijo na mão, com aquele travo de altivez, arrogância e convencimento típico dos pequenos ditadores, que acha que gerir a coisa pública é impor a sua vontade, sem passar água vai, água vem, a ninguém, como aliás fez durante estes últimos dois anos. Isso irá a médio prazo dar disparate, como podia ter dado agora. De ver que dos mais de 4.900 votos disponíveis de duas anteriores candidaturas (de independentes e MPT) e novos votos disponíveis, por força de menos votos nulos e brancos, a candidatura do PS à Câmara, só conseguiu aumentar cerca de 2.500. O partido que mais cresceu – para o dobro da votação, foi mesmo o BE, ao passar de 585 para 1194 votos para a Câmara.

Pensar que ganhar é ter razão, é o primeiro passo para que Tomar não saia da cepa torta: com menos investimento, menos habitantes e menos paciência, para acreditar que no futuro teremos mais soluções que tivemos no passado. Preparam-se assim tempos bem difíceis e, ninguém parece querer ver.

Parece assim ser que quem quiser ter “razão” daqui a oito anos, ganhando, terá de por já as pernas ao caminho. Foi assim que Anabela Freitas chegou ao poder: aproveitando cada oportunidade para colocar o pé no degrau certo e mesmo sem razão, no final ganhar. Tomar que se cuide! Eu continuo a acreditar que há um outro caminho: o da seriedade, da transparência, da verdade e da coragem.

* Ex-vereador da Câmara Municipal de Tomar