11.10.12

Livros revisitados - crescer nas Bandas filarmónicas

Coluna no Jornal "O Templário", publicada em Outubro de 2012

Um estudo sobre a construção da identidade musical dos jovens portugueses, da doutorada em psicologia da música, Graça Mota, é o livro revisitado que hoje lhe propomos.
Desde 1986, altura em que a Escola Superior de Educação do Politécnico do Porto iniciou o programa de formação de professores de educação musical, que se constatou que uma boa parte dos candidatos ao curso tinham não só iniciado a sua formação musical nas Bandas Filarmónicas, como mantinham com estas uma relação significativa de continuidade e de uma pertença muito própria, quer em termos dos laços familiares quer dos afectos e das afiliações culturais e sociais.
 
A investigação que deu origem a este livro teve como objectivo geral a busca de compreensão acerca do papel que a participação nas Bandas Filarmónicas representa na construção da identidade musical de jovens portugueses. A análise dos dados recolhidos junto de alunos e ex-alunos, permitiu construir social e culturalmente o contexto das Bandas Filarmónicas e compreender o papel que estas têm, na estruturação das suas identidades musicais.
 
Numa edição das Edições Afrontamento, com o ISBN 978-972-36-1000-0, a autora faz-nos um retrato do porquê e do que é ser músico, numa Banda Filarmónica.
 
Sintomáticos alguns dos testemunhos abordados, como este de Alice, estudante e professora, de que, ser músico numa Banda Filarmónica, “é a base de tudo aquilo o que eu sou hoje, do que quero ser. A banda foi onde eu cresci, posso dizer, onde eu me fiz alguma coisa… É como uma mãe ter um filho”. Este percurso pessoal, único e irrepetível, converge para uma construção do indivíduo mais completa. Aliás, este tipo de partilha, de mundividência de estímulos, partilha a música, com muito do que os desportistas e os seus estudiosos nos ensinam também.
 
Mas porque se vai para uma Banda Filarmónica? Segundo o estudo, são as ligações familiares ou de amizade que imperam na escolha, uma vez que de entre o universo estudado 63% tinham tido algum familiar ligado às bandas. De notar, que o estudo incidiu sobre estudantes para professores de educação musical. No entanto esta frequência, denota algo que também em Tomar constatamos: o fato de muitos músicos terem algum familiar agora ou no passado ligado à música e às Bandas. Sejam às atualmente existentes: Paialvo, Nabantina, Gualdim-Pais ou Pedreira, ou às extintas das Fábricas de Fiação, Matrena ou das Curvaceiras.
 
Ao longo dos últimos mais de 150 anos, no desenvolvimento de uma pré-sociedade industrializada, que nunca se chegou a implantar em Portugal, mas que em Tomar chegou a ocupar praticamente 50% da população, nos anos 60/70 do Sec.XX, muitos músicos houve por aqui. Não foi estranho a esse fenómeno, bem como à sua qualidade em diversos momentos, a instalação em Tomar, junto do seu Regimento de Infantaria, de uma Banda Militar e da importância desta no contexto regional, acompanhando assim a importância regional de Tomar, que chegou a ser sede de uma Região Militar com o mesmo nome.
 
Ainda antes da expansão do ensino oficial da música, a partir dos anos 90 com o ensino vocacional artístico, já em Tomar cerca de 1000 crianças aprendiam música todos os anos, a diferentes níveis.
 
Fomos pioneiros e ajudámos a promover alguns dos nossos líderes políticos no seu seio, demonstrando assim o carácter ecléctico e completo da importância da música no geral, e das Bandas Filarmónicas no particular, no nosso devir nabantino. Só para dar dois exemplos da mesma geração, hoje à roda dos 35 anos, o atual líder do PSD local, João Tenreiro, foi durante anos músico da Nabantina e o ex-líder do PS local, Hugo Cristóvão, também o foi na Gualdim-Pais. Pela qualidade de ambos, se percebe da importância e já agora, da força do viver em comunidade musical, em Tomar.
 
Um estudo a não perder e uma aprendizagem a fazer. Sempre!